O renomado ator Dustin Hoffman, duas vezes vencedor do Oscar, foi o centro das atenções no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, na Chéquia, ao receber o prestigiado Globo de Cristal por sua Contribuição Artística Excepcional ao Cinema Mundial. A homenagem, ocorrida em 3 de julho de 2026, marcou um dos pontos altos da 60ª edição do festival, que celebra não apenas a excelência cinematográfica, mas também uma história de resiliência e paixão pela sétima arte. O evento, considerado o maior da Chéquia, consolida sua posição como um dos mais importantes festivais de cinema do cenário global.
Uma celebração de seis décadas de cinema
A estância termal de Karlovy Vary se transformou em um efervescente polo cultural para a 60ª edição do festival, que também comemora o 80º aniversário de sua fundação em 1946. Reconhecido como o segundo festival de cinema mais antigo do mundo, apenas atrás de Veneza, Karlovy Vary atraiu uma constelação de estrelas e talentos. Nomes como Maggie Gyllenhaal, Jesse Eisenberg, Juliette Binoche, Jeffrey Wright, Harvey Keitel, Kyra Sedgwick, Kevin Bacon e o diretor de fotografia Robert Richardson estiveram presentes para saudar fãs e cinéfilos.
Neste ano, a programação é vasta, com 12 filmes na competição principal, 12 na competição Proxima e 12 em sessões especiais, além de dezenas de outras longas-metragens de ficção e documentários. No total, o público terá a oportunidade de assistir a até 200 filmes em exibição, refletindo a diversidade e a riqueza da produção cinematográfica mundial. Historicamente, o festival desempenhou um papel crucial como o único evento de categoria A destinado ao Bloco de Leste, o que o obrigou a alternar anualmente com Moscou entre 1959 e 1993.
O legado de Jiří Bartoška e a visão do festival
A trajetória do festival é marcada por uma notável capacidade de superação. Ele resistiu ao comunismo rigoroso dos anos 1950, à ocupação de 1968 e à subsequente “normalização” nas décadas de 1970 e 1980. Contudo, o período pós-Revolução de Veludo, nos anos 1990, representou um dos maiores desafios, com a concorrência do festival Golden Golem, em Praga, que acabou por desaparecer. Foi nesse cenário que o popular ator Jiří Bartoška, juntamente com a especialista em cinema Eva Zaoralová, assumiu a organização e relançou o evento em 1994.
Sob a liderança de Bartoška, o festival se emancipou de Moscou e se tornou o mais importante da antiga área do “Bloco de Leste”. Sua visão central era manter o festival em Karlovy Vary. “Uma cidade grande dilui o festival”, afirmou Jiří Bartoška no documentário “Musíme to zarámovat!” (Temos de o enquadrar!). Ele argumentava que a atmosfera única de Karlovy Vary, descrita por Corbusière como um “aglomerado de bolos art nouveau”, envolvia os participantes, incentivando a imersão no cinema. Os primeiros anos foram difíceis, com a falta de apoio governamental, exigindo que Bartoška assinasse uma grande livrança para garantir a realização do evento, um compromisso que ele honrou.
O diretor executivo do festival, Kryštof Mucha, explicou à Euronews que a fama de Bartoška e suas conexões com figuras políticas como Václav Havel e Václav Klaus foram cruciais para atrair investidores e patrocinadores privados. Após o falecimento de Jiří Bartoška antes da 59ª edição, em 2024, o festival passou a ser dirigido por um triunvirato composto por Kryštof Mucha, o diretor artístico Karel Och e o diretor de produção Petr Lintimer.
Acessibilidade e o futuro do Festival de Karlovy Vary
Com um orçamento de cerca de 10 milhões de euros (equivalente a 250 milhões de coroas checas), o Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary se destaca por seu modelo de financiamento, onde aproximadamente 70% provêm de patrocinadores privados, 20% do governo e 10% da cidade e região de Karlovy Vary. Essa estrutura contrasta com muitos outros festivais de cinema, que dependem mais de fundos públicos.
Um dos pilares que tornam Karlovy Vary verdadeiramente especial é a sua acessibilidade. “O que torna Karlovy Vary especial é o facto de qualquer pessoa poder vir e simplesmente comprar um bilhete”, destaca Kryštof Mucha. Com ingressos custando menos de 3 euros, o festival se mantém aberto a todos, independentemente de serem profissionais da indústria ou cinéfilos casuais. A edição anterior registrou quase 10.000 acreditados, incluindo 411 cineastas, 1.055 profissionais e 557 jornalistas. Foram realizadas 465 sessões de cinema, com mais de 128.000 bilhetes vendidos, e 175 filmes exibidos, consolidando a vocação do festival de ser um encontro democrático e vibrante para o cinema.