A estabilização do Oriente Médio, uma região marcada por conflitos prolongados e complexas dinâmicas políticas, pode encontrar um caminho promissor através de uma abordagem inovadora: a cultura e a infraestrutura. Essa é a proposta lançada à União Europeia por um grupo de intelectuais sírios, entre eles o renomado linguista e musicólogo Nabil Al Lao e a acadêmica Maria Francesca Corrao. Eles defendem que a proteção das antigas civilizações e o investimento em projetos civis podem ser o ponto de partida para um processo de paz duradouro e significativo.
A iniciativa transcende a diplomacia cultural tradicional, buscando uma estratégia realista que envolva as populações locais e ajude a superar desconfianças mútuas, elementos cruciais para a reconstrução de uma sociedade pós-guerra. A visão é transformar teatros de guerra em campos arqueológicos, onde a recuperação do patrimônio cultural esteja intrinsecamente ligada ao desenvolvimento de infraestruturas essenciais.
Uma Estratégia Cultural Abrangente para a Estabilização Regional
A proposta de Nabil Al Lao, antigo diretor do Conservatório de Damasco e fundador do Teatro de Ópera da capital síria, sugere que países da União Europeia, como França, Alemanha, Itália e Espanha, possuem os instrumentos necessários para iniciar uma política cultural no Levante. Essa política, com um valor preliminar e visível, teria o potencial de evoluir para um processo político concreto e de maior fôlego, criando novos equilíbrios civis e políticos em uma região devastada.
O objetivo é claro: associar a recuperação do patrimônio cultural a projetos de infraestruturas civis. Essa abordagem visa envolver populações exaustas após anos de guerra e, assim, superar as desconfianças mútuas que se enraizaram durante o conflito. A Síria, por exemplo, tem enfrentado dificuldades para se reerguer de uma sangrenta guerra intercomunitária iniciada em 2011 e oficialmente concluída no final de 2025 com a queda do regime da dinastia Assad, cujas causas profundas, no entanto, permanecem sem solução.
O Legado Diplomático e a Persistente Visão de Nabil Al Lao
A trajetória de Nabil Al Lao é marcada por sua profunda conexão com a cultura e a política. Além de musicólogo, ele é um arabista e especialista em francês, tendo vivido na Itália e na França. Sua experiência inclui o papel de intérprete oficial para a língua francesa dos ex-presidentes sírios Hafez el Assad e, posteriormente, Bachar el Assad, participando de encontros bilaterais com líderes franceses como Nicolas Sarkozy e Jacques Chirac.
Foi Al Lao quem traduziu uma conversa crucial em que Chirac exortava Bachar el Assad a não ordenar a morte do então primeiro-ministro sunita libanês Rafiq Hariri. Apesar do apelo do Eliseu, Hariri foi assassinado em 2004, em Beirute, em um atentado presumivelmente orquestrado pelos serviços de inteligência de Damasco. Para Al Lao, esse evento marcou um “ponto sem retorno” para o regime sírio, extinguindo qualquer esperança de restabelecer uma relação estável com a Europa e de apostar em uma democratização interna.
Cultura como Ponte para a Paz: A Orquestra East-West Diwan
A convicção de Nabil Al Lao sobre a importância da cultura como fundamento para um processo de paz generalizado no Oriente Médio solidificou-se nesses anos. Em 2004, ele conseguiu, de forma quase clandestina, enviar um grupo de jovens músicos sírios para tocar em Ramallah. Eles se juntaram a instrumentistas israelenses e palestinos da mesma idade em um concerto organizado pelo grande maestro Daniel Barenboim e pelo célebre intelectual palestino-estadunidense Edward Saïd.
A orquestra, batizada de East-West Diwan, em homenagem à coletânea de poemas de Johann Wolfgang von Goethe, representou um poderoso símbolo de união e diálogo. Al Lao recorda a chamada de Saïd, que se apresentou na fronteira sírio-libanesa buscando um convite para encontrá-lo em Damasco. A iniciativa, embora bem-sucedida em seu propósito cultural, custou a Al Lao uma admoestação de um alto responsável dos serviços secretos do regime de Bachar al-Assad. No entanto, ele foi protegido pela influência do então rei da Espanha, Juan Carlos, que mantinha relações cordiais com o presidente sírio.
Desafios e o Futuro da Reconstrução Cultural
Anos mais tarde, Nabil Al Lao foi forçado a deixar a Síria, mergulhada na guerra civil, após cair em desgraça junto a Bachar al-Assad e seu círculo de homens dos serviços de segurança. Ele revela ter sido capturado em 2013 por homens do regime disfarçados de milicianos do Estado Islâmico, indicando a complexidade e a brutalidade do conflito que também levou à devastação cultural. A reconstrução da milenar cultura mesopotâmica e do Levante, que serviu de base para a própria civilização europeia, é vista como um elemento fundamental para a estabilidade e a reconciliação na região. A Europa, com seus recursos e experiência, pode desempenhar um papel crucial nesse processo, transformando a recuperação cultural em um pilar para a paz e o desenvolvimento.
Para mais informações sobre o papel da União Europeia em iniciativas de paz e desenvolvimento, visite o site oficial da União Europeia.