A atuação do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet, no desenrolar do escândalo financeiro envolvendo o Banco Master tem gerado intensos questionamentos. Nomeado para a chefia da PGR em 2023, Gonet chegou ao cargo com o apoio de diversas frentes políticas, alimentando a expectativa de uma postura rigorosa na fiscalização da lei. Contudo, as recentes revelações de um relatório da Polícia Federal (PF) apontam para um comportamento que diverge dessa expectativa, sugerindo uma proximidade incomum com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, figura central no caso.
As informações contidas no relatório da PF indicam que a conduta de Gonet, que inclui oposição a prisões e recusa de acordos de colaboração, pode estar inserida em uma complexa teia de relações entre autoridades e o banqueiro investigado. Essa situação levanta sérias preocupações sobre a imparcialidade e a profundidade das investigações em curso.
A conduta do Procurador-Geral da República no caso Master
Desde o início das investigações sobre o Banco Master, a postura de Paulo Gonet tem sido alvo de controvérsia. O procurador-geral manifestou-se contra a prisão de Daniel Vorcaro e recusou duas propostas de delação premiada apresentadas pelo ex-banqueiro. Além disso, Gonet condicionou possíveis acordos de colaboração à devolução de quantias financeiras elevadas e emitiu pareceres contrários a diligências consideradas essenciais para o avanço da apuração.
Essa linha de ação, conforme o relatório da PF, levantou dúvidas sobre a imparcialidade da Procuradoria-Geral da República. O documento sugere que a conduta de Gonet pode estar ligada a uma teia de relações impróprias entre autoridades e o banqueiro investigado, o que comprometeria a lisura do processo.
Relações pessoais e a rede de influência de Daniel Vorcaro
Os diálogos interceptados pela Polícia Federal revelam uma relação de proximidade entre Paulo Gonet e Daniel Vorcaro, que se estendia desde meados de 2024, período em que já havia rumores sobre a situação do Banco Master. A comunicação entre os dois era frequentemente intermediada pelo advogado Ciro Soares, que atuava como elo e acompanhava viagens internacionais. Em março de 2025, mensagens mostram Gonet expressando “saudade” e “torcida” pelo banqueiro, além de celebrar um evento que Vorcaro promoveria na Inglaterra, com menções a charutos e uísque Macallan.
Essa proximidade se manifestou publicamente em abril de 2024, quando Daniel Vorcaro ofereceu uma degustação de uísque Macallan em Londres a diversas autoridades brasileiras, incluindo os ministros do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e o próprio Paulo Gonet. O evento, que custou uma quantia significativa, foi articulado em meio a mensagens de Ciro Soares que destacavam a “amizade” e a “firmeza” de Gonet em articulações de interesse do grupo de Vorcaro.
Questionamentos sobre a imparcialidade e o arquivamento de investigações
A confraternização com investigados, embora não seja crime, coloca em xeque a temperança e o distanciamento esperados de um chefe do Ministério Público. A função de Paulo Gonet inclui a análise de denúncias contra magistrados do STF e propostas de delação relacionadas ao caso Master. A falta de imparcialidade pode resultar na omissão de investigações cruciais, comprometendo a busca pela verdade.
No início do ano, o procurador-geral já havia arquivado três pedidos de afastamento do ministro Dias Toffoli do caso Master, mesmo diante de revelações sobre viagens com advogados do banco e a compra de um resort familiar por um fundo ligado à instituição. Gonet concluiu, sem investigar, que não havia irregularidades. Mensagens da PF também mostram Vorcaro informando a Alexandre de Moraes que Gonet teria assegurado que não haveria “sacanagem” contra o banco.
O parecer recente e o risco de impunidade no escândalo
Em um desenvolvimento recente, Paulo Gonet apresentou um parecer defendendo a nulidade do relatório da Polícia Federal. Ele também acusou o ministro André Mendonça, relator do caso no STF, de conduzir uma investigação ilegal contra um colega de toga. Essa ação, se confirmada, pode efetivamente encerrar as apurações e garantir a impunidade dos envolvidos, varrendo as suspeitas para debaixo do tapete.
A postura de Gonet remete à tradição de “engavetadores-gerais da República”, termo irônico para PGRs que demonstram pouco interesse em investigações sensíveis. O procurador-geral argumentou em seu parecer que “ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais”, criticando a atuação de Mendonça. No entanto, sua manifestação não abordou as próprias relações com o banqueiro Daniel Vorcaro, que foram expostas no relatório da PF, deixando em aberto os questionamentos sobre sua conduta.
Fonte: veja.abril.com.br