A Polícia Federal (PF) está investigando um de seus próprios agentes sob a suspeita de ter vazado informações cruciais sobre a sexta fase da Operação Unha e Carne. Esta operação mirava um vasto esquema de lavagem de dinheiro que teria movimentado impressionantes 7,6 bilhões de reais por meio de uma rede de postos de combustíveis irregulares no Rio de Janeiro. O principal suspeito, um escrivão lotado na Delegacia de Repressão a Crimes Fazendários, foi afastado de suas funções enquanto a apuração prossegue.
As investigações apontam para um cenário de possível conluio, onde o agente teria se comunicado com um dos alvos principais da operação pouco antes das buscas. A gravidade das alegações ressalta a complexidade e os desafios enfrentados pelas forças de segurança no combate a crimes financeiros de grande escala, especialmente quando há suspeitas de comprometimento interno.
Suspeitas de vazamento e contato direto com alvos
Os investigadores da Polícia Federal descobriram que o escrivão Fábio Henrique Ferreira dos Santos manteve contato com Pablo Jukiá Félix Ferreira, conhecido como “Pablo Russo”, um dos principais alvos da Operação Unha e Carne. Esse contato teria ocorrido na véspera das buscas, levantando sérias preocupações sobre a integridade da operação.
Registros indicam que os dois combinaram um encontro presencial. Além disso, o agente teria configurado seu celular para que as conversas fossem apagadas automaticamente após 24 horas, um método que sugere uma tentativa de ocultar a comunicação. Foram identificadas também cinco chamadas de voz via WhatsApp entre o escrivão e o alvo, fortalecendo os indícios de um possível vazamento.
Indícios de antecipação e ocultação de provas
As suspeitas de vazamento ganharam força diante de evidências de que os alvos da operação se anteciparam às ações policiais. Durante as buscas na sede da ADM Oil Prestadora de Serviços, uma das empresas investigadas em Niterói, os policiais encontraram aproximadamente 896.000 reais em espécie. Contudo, a descoberta de sacos plásticos vazios, idênticos aos utilizados para acondicionar o dinheiro apreendido, levantou a forte suspeita de que uma quantia significativamente maior havia sido retirada do local pouco antes da chegada da equipe.
Após a operação, a Polícia Federal recebeu um alerta do Disque Denúncia, informando sobre movimentações no condomínio de Pablo Jukiá antes das buscas. O relato indicava que ele havia retirado documentos e outras provas que poderiam incriminá-lo. A PF destacou que a destruição e ocultação de provas por parte do escrivão e de Pablo Jukiá causaram graves prejuízos à investigação, impedindo a coleta de elementos probatórios cruciais para corroborar as hipóteses criminais.
O esquema bilionário de lavagem de dinheiro
A Operação Unha e Carne investiga um complexo esquema que teria movimentado 7,6 bilhões de reais. A rede de postos de combustíveis irregulares no Rio de Janeiro é apontada como o principal meio para a lavagem de dinheiro, utilizando empresas de fachada e laranjas para dissimular a origem ilícita dos recursos.
Além da lavagem, documentos apreendidos sugerem o pagamento de propinas a agentes públicos. A própria operação dos postos é considerada irregular pelos investigadores, com indícios de que os estabelecimentos funcionavam em desacordo com as normas legais, participavam de cartel para definir preços artificialmente e neutralizar a concorrência. A PF também aguarda resultados de perícias sobre a qualidade dos combustíveis, suspeitos de serem adulterados.
Desdobramentos e prisões em novas fases
Diante das evidências e dos prejuízos à investigação, a Polícia Federal encaminhou uma representação ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), solicitando o afastamento do escrivão e a autorização para uma nova etapa da Operação Unha e Carne. O ministro atendeu aos pedidos, permitindo a continuidade e aprofundamento das apurações.
A oitava fase da operação resultou em prisões de alto perfil, incluindo o ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), que obteve a segunda maior votação para a Assembleia Legislativa do Rio na última eleição, e o ex-secretário de Polícia Civil do Rio, Marcus Amim, além de outras quatro pessoas. Esses desdobramentos reforçam a amplitude e a seriedade das investigações em curso. A Polícia Federal segue atuando para desmantelar completamente o esquema e responsabilizar todos os envolvidos.
Fonte: veja.abril.com.br