A Euterpe oleracea, popularmente conhecida como açaí, é uma fruta emblemática da Amazônia, amplamente consumida pelas comunidades ribeirinhas do Pará. Reconhecida por seu alto teor de compostos bioativos, o açaí tem conquistado destaque nacional e internacional como um alimento funcional e nutracêutico de grande valor.
A ciência tem validado muitas das propriedades tradicionalmente atribuídas ao açaí pelos povos amazônicos, incluindo atividades anti-inflamatórias, antioxidantes, anticancerígenas, cardioprotetoras e neuroprotetoras. Esses benefícios são intrinsecamente ligados aos compostos fenólicos presentes na fruta, notadamente as antocianinas, que conferem ao açaí sua característica cor roxa.
Açaí: Um Tesouro Amazônico sob o Olhar da Ciência
Nas comunidades ribeirinhas, o consumo de açaí é um hábito desde a infância, frequentemente associado a uma sensação de “relaxamento”. Essa observação popular despertou a curiosidade científica, culminando em uma parceria de pesquisa que investigou o potencial do fruto como um importante neuroprotetor, com ação promissora contra a ansiedade e a depressão, especialmente em adolescentes.
A fase da adolescência é um período crítico de intensa maturação cerebral, caracterizado por refinamento sináptico, remodelação estrutural e funcional, e elevada plasticidade. Essa vulnerabilidade torna o cérebro adolescente mais suscetível a fatores ambientais e estressores, como o uso de substâncias. Compreender como o açaí pode proteger essa fase de desenvolvimento tornou-se o foco central do estudo.
A Jornada Científica: Da Amazônia à Pesquisa Neuroprotetora
O fascínio por este fruto único e saboroso cativou o professor Hervé Rogez, um cientista belga radicado no Pará há mais de três décadas. Atualmente, ele coordena o Centro de Valorização de Compostos Bioativos da Amazônia (CVACBA) na Universidade Federal do Pará (UFPA). Com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre as propriedades do açaí, o professor Hervé e sua equipe coletam frutos em áreas de várzea das ilhas que cercam Belém.
A intenção era verificar se a sensação de relaxamento popularmente conhecida estaria ligada aos compostos fenólicos do açaí. Para isso, o professor Hervé buscou a expertise em avaliação neurocomportamental da coordenadora da área de comportamento do Laboratório de Farmacologia da Inflamação e do Comportamento (LAFICO).
Um avanço crucial da pesquisa foi o desenvolvimento do suco de açaí clarificado. Este produto biotecnológico, obtido por centrifugação e microfiltração da polpa, representa uma fração aquosa rica em polifenóis, mas sem fibras, proteínas, carboidratos e lipídios. Essa formulação permitiu que os resultados da pesquisa fossem diretamente atribuídos aos compostos fenólicos, isolando seus efeitos dos demais constituintes do fruto.
Metodologia e Descobertas Comportamentais do Açaí
O suco de açaí clarificado foi então submetido a um projeto de investigação liderado pela doutoranda Taiana Simas, sob a orientação dos professores Hervé e da coordenadora do LAFICO. Os testes preliminares foram conduzidos em ratos machos, cuja idade equivalia ao início da adolescência humana, aproximadamente entre 10 e 18 anos.
Para simular o consumo da população ribeirinha da Amazônia, que ingere cerca de 500mL de açaí por dia com um teor de antocianinas de aproximadamente 865mg/L, a dose para os animais foi calculada em 5,85mL de suco clarificado. Os ratos recebiam o suco em bebedouros nas gaiolas, com acesso livre por 12 horas diárias, entre 18h e 6h.
Após 10 dias de ingestão do suco, os animais foram submetidos a uma série de testes comportamentais para avaliar ansiedade, depressão e cognição:
- Teste do campo aberto: Avalia a locomoção e a aversão a áreas abertas, indicando comportamento ansiogênico. Maior exploração do centro reflete menos ansiedade.
- Teste do labirinto em cruz elevado: Considerado padrão-ouro para ansiedade, mede o conflito entre a exploração e a aversão a espaços abertos.
- Teste do labirinto em Y: Utilizado para avaliar a memória, analisando a capacidade do animal de reconhecer espaços visitados.
- Teste do nado forçado: Um indicador de comportamento depressivo, medindo o tempo de imobilidade do animal na água.
Os resultados foram notáveis: a introdução do suco de açaí clarificado não alterou a locomoção dos animais, mas induziu um comportamento ansiolítico. Isso foi evidenciado pela maior exploração da área central do campo aberto e, crucialmente, pelo aumento da porcentagem de entrada e tempo nos braços abertos do labirinto em cruz elevado, além da diminuição do índice de ansiedade.
Adicionalmente, o estudo revelou um efeito antidepressivo, manifestado pela diminuição do tempo de imobilidade e aumento do tempo de escalada no teste do nado forçado, nos animais que consumiram a bebida.
Ação Antioxidante: O Açaí na Proteção Celular Cerebral
Além dos benefícios comportamentais, a pesquisa investigou a capacidade do açaí em mitigar o estresse oxidativo. O suco clarificado demonstrou uma resposta antioxidante significativa, promovendo o aumento da glutationa peroxidase no córtex pré-frontal. Esta enzima é vital para proteger as células contra o estresse oxidativo e é fundamental para a emocionalidade e tomada de decisão.
O aumento da glutationa peroxidase indica uma redução no acúmulo de espécies reativas de oxigênio, minimizando danos oxidativos a lipídios, proteínas e DNA. Esse mecanismo oferece maior proteção celular e contribui para a manutenção da função neuronal, reforçando o papel do açaí como um poderoso agente neuroprotetor.
Fonte: correiodecarajas.com.br