A cantora e compositora norte-americana SZA, vencedora do Grammy, expressou veementemente seu repúdio à inteligência artificial (IA) na indústria musical, classificando a tecnologia e seus apoiadores como “nojentos”. A reação da artista de R&B surgiu após a descoberta de que centenas de suas canções foram utilizadas para treinar sistemas de IA, levantando um debate crucial sobre direitos autorais, ética e o impacto desproporcional da tecnologia em comunidades específicas.
A controvérsia reacende discussões sobre a proteção da propriedade intelectual e a necessidade de regulamentação em um cenário onde a IA avança rapidamente, transformando a criação e o consumo de conteúdo. A posição de SZA reflete uma crescente preocupação entre artistas sobre a apropriação de seu trabalho sem consentimento ou compensação adequada, desafiando as empresas de tecnologia a repensarem suas abordagens.
A descoberta e a forte reação de SZA ao uso de suas obras
A indignação de SZA veio à tona por meio de uma publicação em suas redes sociais, onde a artista revelou os resultados de uma pesquisa em uma base de dados de música gerada por IA. A busca indicou que um total de 238 de suas faixas, algumas possivelmente sem edição, foram incorporadas em conjuntos de dados para treinamento de IA. Essa descoberta provocou uma resposta contundente da cantora, que não poupou críticas.
Em sua declaração, SZA afirmou: “Verifiquei e a IA musical foi treinada com 238 das minhas canções. Tenho a certeza de que algumas nem sequer foram editadas. Se és músico e apoias esta merda degenerada, és nojento e NÃO HÁ NADA QUE POSSAS DIZER-ME PARA TORNAR ISTO ACEITÁVEL. Espero que tenhas a vida que mereces.” A artista, conhecida por sucessos como “Kill Bill” e “Luther” com Kendrick Lamar, deixou clara sua posição intransigente contra o uso não autorizado de seu material.
Acusações diretas contra Suno e Diplo e o alerta sobre desigualdade
Em uma postagem subsequente, SZA direcionou suas críticas à empresa de criação musical por IA Suno e ao produtor Diplo. Ela alegou que Diplo possui participação na Suno e estaria ativamente envolvido na tentativa de treinar a IA com o trabalho de “melhores e mais brilhantes mentes negras de autores e produtores”.
A artista enfatizou a desproporcionalidade do impacto da IA, questionando a ausência de músicas de IA criadas a partir de artistas brancos. “Representamos 13% da população norte-americana e, mesmo assim, influenciamos o mundo com o nosso som e a nossa perspetiva”, declarou SZA. Ela argumentou que seu grupo demográfico carece de proteção legal, médica e criativa, sendo frequentemente o mais vulnerável a apropriações. SZA concluiu com um apelo: “NÃO OFEREÇAM O VOSSO VIBRANIUM!!! NÃO TREINEM A IA COM O VOSSO GENIALISMO. Que se lixem estes abutres esquisitos.”
A defesa da Suno e o conceito de “criação original por design”
Em resposta às crescentes críticas, o diretor de produto da Suno, Jack Brody, defendeu a abordagem da empresa em relação à IA generativa. Ele assegurou que a preservação da arte e da criatividade humana é tão fundamental quanto a inovação do produto para a Suno, destacando que a maioria dos desenvolvedores da empresa são músicos.
Brody explicou que a Suno integra proteções desde a base de sua plataforma, incluindo regras claras contra o upload ou distribuição de conteúdo sem direitos autorais e parcerias com fornecedores como Audible Magic, Musixmatch e ACRCloud para prevenir abusos. Ele ressaltou que os modelos da Suno são construídos em torno do conceito de “Original Creation, By Design”, o que significa que são treinados para ajudar na criação de músicas novas, não para replicar as existentes. A empresa afirma não usar nomes de artistas como metadados de treinamento, visando evitar a geração de reproduções não autorizadas. Para mais informações sobre as políticas de IA na música, clique aqui.
Críticas anteriores de SZA e o contexto social da IA
Esta não é a primeira vez que SZA se manifesta contra a inteligência artificial. Em declarações anteriores, a artista já havia expressado sentir-se “em guerra por causa da IA”, destacando que a tecnologia afeta desproporcionalmente a música negra. Ela mencionou casos de versões de IA de artistas emergentes que mal tiveram tempo de colher os frutos de seu próprio trabalho, e criticou a natureza estereotipada e “estranha” da música negra gerada por IA, que muitas vezes foca em narrativas de sofrimento.
Além das questões de direitos autorais e apropriação cultural, SZA também levantou preocupações sobre o impacto ambiental da IA e o que ela chamou de “racismo ambiental”. A cantora alertou sobre a energia e a poluição necessárias para operar sistemas de IA, e o sofrimento de comunidades específicas devido a novos sistemas tecnológicos. Ela enfatizou que a IA não se importa com a vida humana e que há um preço a pagar pela conveniência, frequentemente arcado por comunidades negras e racializadas.