O segundo dia de julgamento do caso Henry Borel foi marcado por revelações contundentes apresentadas pelo delegado Edson Henrique Damasceno. Titular da unidade policial responsável pela investigação na época do crime, Damasceno detalhou como a análise técnica de dispositivos móveis e depoimentos de testemunhas-chave desconstruíram a versão inicial de acidente doméstico apresentada pelos réus.
O depoimento, considerado um dos pilares da acusação, focou na cronologia dos eventos que levaram à morte do menino de quatro anos e na conduta dos acusados logo após o óbito. A narrativa técnica do delegado reforçou a tese de que havia um padrão de violência estabelecido dentro da residência, frequentemente ignorado ou omitido pelos responsáveis diretos pela segurança da criança.
Mensagens da babá revelam rotina de agressões e omissão
De acordo com o delegado, a recuperação de mensagens apagadas no celular da babá de Henry foi o ponto de virada nas investigações. Os registros mostravam relatos em tempo real de episódios de violência praticados pelo padrasto, o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho. Em uma das conversas mais alarmantes, a funcionária descrevia para Monique Medeiros, mãe da vítima, que o menino havia sido trancado em um quarto com o padrasto.
Ao sair do cômodo, a criança apresentava sinais físicos de trauma, como claudicação e queixas de dores de cabeça. Para a polícia, esse material é uma prova irrefutável de que a mãe tinha pleno conhecimento das agressões e não agiu para proteger o filho. A análise pericial indicou que as mensagens foram fundamentais para estabelecer o nexo causal entre o comportamento de Jairinho e as lesões fatais encontradas no corpo de Henry.
Tentativa de evitar perícia no Hospital Barra D’Or
Outro ponto crítico abordado por Edson Henrique Damasceno foi a conduta de Dr. Jairinho nas horas que sucederam a chegada da criança ao Hospital Barra D’Or. O delegado confirmou que o ex-vereador utilizou sua influência política para pressionar a administração da unidade de saúde. O objetivo era obter um atestado de óbito imediato, o que dispensaria o encaminhamento do corpo ao Instituto Médico Legal (IML).
Um alto executivo da Rede D’Or prestou depoimento confirmando ter recebido diversas ligações e mensagens de texto insistentes de Jairinho. Se a pressão tivesse surtido efeito, o corpo de Henry Borel poderia ter sido sepultado sem passar por uma necropsia detalhada, o que teria inviabilizado a coleta de provas biológicas e mecânicas das agressões. A firmeza da equipe médica em seguir o protocolo legal foi essencial para a descoberta da verdade.
Além disso, a investigação levantou antecedentes preocupantes. O delegado mencionou que:
- Duas ex-companheiras de Jairinho relataram agressões semelhantes contra seus próprios filhos.
- Houve um padrão de comportamento intimidador contra testemunhas durante o inquérito.
- A versão de queda da cama foi descartada por peritos devido à gravidade das lesões internas.
- A demora em buscar socorro médico foi um fator agravante analisado pela polícia.
Crise na defesa e renúncia de advogado em plenário
O ambiente jurídico durante a sessão desta terça-feira, 26, também foi de instabilidade. O advogado Sérgio Figueiredo, que integrava a equipe de defesa de Dr. Jairinho, anunciou sua renúncia ao caso em pleno tribunal. A decisão foi um protesto contra a negativa do Tribunal do Júri em adiar o julgamento, após o líder da banca defensiva, Fabiano Tadeu Lopes, sofrer um infarto e ser hospitalizado.
Apesar do desfalque na equipe de defesa, o magistrado optou por manter o rito processual, entendendo que a continuidade do julgamento é necessária para a celeridade da justiça. Esse movimento estratégico da defesa é visto por analistas como uma tentativa de gerar nulidades processuais futuras, enquanto a acusação foca na robustez das provas técnicas apresentadas pelo delegado e pelos peritos criminais.
Relembre as circunstâncias da morte de Henry Borel
A morte de Henry Borel, ocorrida em 2021, chocou o país pela brutalidade dos detalhes revelados pelos laudos médicos. O menino não resistiu a múltiplas lesões internas, incluindo lacerações no fígado e danos nos rins, compatíveis com ação violenta e não com um acidente doméstico comum. A investigação completa pode ser acompanhada em detalhes através do portal da Agência Brasil, que realiza a cobertura oficial do caso.
Até o momento, o julgamento segue com a oitiva de testemunhas de acusação. O depoimento do delegado Damasceno reforçou que a convicção policial sobre a autoria do crime não se baseou apenas em suposições, mas em uma rede complexa de evidências digitais, testemunhais e periciais que apontam para a responsabilidade direta do casal na tragédia que vitimou a criança.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br