Cerca de 600 objetos, coletados, adquiridos ou doados entre as décadas de 1920 e 1950, estão finalmente saindo da reserva técnica do Museu do Ipiranga. Este movimento representa um esforço da instituição para reconhecer e ressignificar a existência dessas peças, que passaram quase um século guardadas. Desde sua reinauguração em 2022, o museu tem se dedicado a revisitar e aprofundar as narrativas abrigadas em seu vasto acervo.
Recentemente, a instituição promoveu um encontro significativo, reunindo ceramistas, museólogos e agentes culturais de Taubaté, São Luiz do Paraitinga e Cunha, municípios do Vale do Paraíba (SP). O objetivo foi colocá-los em contato direto com a Coleção Sertaneja, um conjunto diversificado de itens que inclui desde objetos de uso cotidiano, como roupas e utensílios de cozinha, até peças de cunho religioso e artesanatos. Estes últimos foram confeccionados predominantemente em madeira, metal, material têxtil, couro e palha.
Desvendando um acervo oculto por décadas
Muitas das peças da Coleção Sertaneja carecem de referências detalhadas, sabendo-se apenas que foram coletadas no período de 1920 a 1950. A maioria dos itens com origem conhecida provém de São Paulo, mas o acervo também conta com peças de outros estados, como Paraíba, Goiás, Bahia, Pernambuco, Paraná, Pará, Ceará, Alagoas, Minas Gerais e Piauí. Dentre os objetos, ao menos 60 foram coletados pelo renomado folclorista Alceu Maynard Araújo, natural de Piracicaba, no interior paulista.
O estudo aprofundado desta coleção, que permaneceu por décadas na reserva técnica do museu, teve início há dois anos. A pesquisa foi impulsionada pela chegada do historiador David Ribeiro à instituição. Sua especialidade em “memórias identitárias e memórias traumáticas” o levou a escolher este acervo para investigação, revelando informações que por muito tempo permaneceram desconhecidas.
O papel do historiador e a releitura racial
David Ribeiro, nascido em Laranjal Paulista, cidade vizinha a Piracicaba, trouxe uma perspectiva crucial para a análise da coleção. Formado pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), ele dedicou seu mestrado e doutorado ao estudo do patrimônio afro-brasileiro e indígena, bem como ao catolicismo popular, com foco especial nas irmandades negras. Suas pesquisas também abordaram as comunidades quilombolas do Vale do Ribeira, região onde muitas das 600 peças foram coletadas.
O historiador destaca a particularidade do racismo no interior de São Paulo, que opera de forma distinta do contexto urbano. Segundo Ribeiro, a população negra vive de maneira “quetificada”, enfrentando uma mobilidade social significativamente mais difícil. Os objetos que agora vêm a público ajudam a narrar essa parte da história, sendo a parcela sob a guarda do Museu do Ipiranga a maior de um total de quase mil peças, com o restante no Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP.
No acervo do MAE, um grupo de quase 300 objetos de culto afro-brasileiro, incluindo oratórios, imagens e instrumentos musicais, oferece um exemplo concreto do que Ribeiro descreve. Esses itens foram apreendidos pela Delegacia de Costumes da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo em 1947 e, posteriormente, doados à USP, evidenciando um período de perseguição e repressão cultural.
Da valorização do “homem da roça” à crítica do anacronismo
O interesse do Museu do Ipiranga pela figura do “caipira” remonta a um movimento inicial de valorização. Pintores como Almeida Júnior, de Itu, e Cesário Motta Júnior, de Porto Feliz – este último o secretário que assinou o decreto de criação do Museu Paulista – eram nascidos no interior e desejavam enaltecer o “homem da roça”. Eles acreditavam que essa figura estava ameaçada de desaparecer diante do avanço do progresso.
Contudo, em um segundo momento, ainda na primeira metade do século XX, o museu, que também propagava a figura do bandeirante, passou a associar o caipira à pobreza e ao atraso. A maior parte da Coleção Sertaneja, não por acaso, é posterior a esse período e se alinha a iniciativas como a Missão de Pesquisas Folclóricas (1938), liderada por Mário de Andrade, e outros movimentos que buscavam salvaguardar um patrimônio cultural em risco de esvair-se.
Com o tempo, essas visões tornaram-se não apenas anacrônicas, mas também problemáticas. Atualmente, a própria designação de “caipira” ou “sertanejo” é questionada. Ribeiro explica que essas categorias pareciam estar “acima ou além do enquadramento racial”, como se “ser caipira fosse algo que superasse o ser negro, o ser branco, o ser mestiço e o ser indígena”. O Museu Paulista, historicamente, teve um papel central na construção do imaginário sobre o sertão, louvando os bandeirantes, que eram eles próprios “sertanistas” que adentravam o interior para “conquistá-lo” ou “domá-lo”.
O futuro da Coleção Sertaneja e a redefinição do sertão
Diante dessa complexidade histórica e conceitual, o historiador David Ribeiro considera fundamental rediscutir a própria nomenclatura da coleção. O objetivo é qualificar e requalificar o acervo por meio de um diálogo contínuo com as comunidades ligadas às regiões de onde os objetos foram coletados. Essa abordagem visa a uma compreensão mais profunda e respeitosa das identidades representadas.
Afinal, o sertão é um conceito multifacetado, abrangendo tanto a visão de Euclides da Cunha quanto a de Guimarães Rosa. Além disso, ele representa aquilo que as instituições culturais, por muito tempo, não souberam ou não quiseram nomear adequadamente. A iniciativa do Museu do Ipiranga busca preencher essa lacuna, promovendo uma reflexão crítica e inclusiva sobre a rica história e cultura do interior brasileiro.
Fonte: blogdomagno.com.br