O crédito rural chegou a R$ 354,4 bilhões no Plano Safra 2025/2026, alta de 7%. O crescimento foi puxado pela CPR, enquanto investimento, custeio tradicional e programas como Moderfrot registraram queda. A estrutura de financiamento do agro começa a migrar para instrumentos privados.

Volume de crédito rural no Plano Safra 2025/2026 cresce impulsionado pela CPR. Imagem: Canva
O crédito rural contratado no Plano Safra 2025/2026 atingiu R$ 354,4 bilhões entre julho de 2025 e fevereiro de 2026, alta de 7% frente ao mesmo intervalo da safra anterior. O dado revela expansão do financiamento ao campo, mas também expõe uma mudança relevante na forma como o setor agropecuário se capitaliza.
Do total contratado, R$ 342,9 bilhões já foram efetivamente liberados aos produtores, avanço de 4%. A leitura inicial sugere estabilidade do fluxo financeiro ao campo. Porém, a composição dos recursos mostra uma redistribuição dentro da engrenagem do crédito agrícola. E é justamente nesse ponto que surge a mudança estrutural do sistema de financiamento do agro.
CPR avança e redefine o financiamento da safra
A principal força por trás do crescimento veio das Cédulas de Produto Rural (CPR). As operações com esse instrumento alcançaram R$ 163,4 bilhões, avanço de 39% frente ao ciclo anterior.
A CPR permite que produtores captem recursos junto a instituições financeiras, tradings e investidores, antecipando receitas futuras da produção agrícola. Com isso, parte relevante do financiamento da safra passa a depender de instrumentos ligados ao mercado de capitais e à estrutura privada de crédito.
Ao somar CPR e custeio tradicional, os recursos destinados à produção chegaram a R$ 269,8 bilhões, alta de 12%. Ainda assim, essa expansão esconde um deslocamento dentro das modalidades tradicionais de crédito rural.
Linhas tradicionais perdem espaço dentro do crédito rural
Enquanto a CPR ganhou tração, os modelos clássicos do crédito agrícola subsidiado registraram retração. O custeio tradicional caiu 13% nas contratações, para R$ 106,4 bilhões, enquanto os recursos efetivamente liberados recuaram 16%, somando R$ 103,4 bilhões.
O recuo foi ainda mais intenso nas linhas de investimento rural, usadas para compra de máquinas, irrigação e modernização produtiva. As contratações totalizaram R$ 39,5 bilhões, queda de 20%, enquanto as concessões caíram 33%, chegando a R$ 33 bilhões. Para além da retração imediata, o dado revela um ponto sensível na estrutura de financiamento agrícola.
Programas de modernização do agro registram quedas
Entre os programas ligados à expansão da capacidade produtiva, as reduções foram expressivas. O Moderfrota, voltado à aquisição de máquinas agrícolas, registrou a maior retração: 49%, passando de R$ 6,85 bilhões para R$ 3,48 bilhões.
Outros programas também perderam força. O Proirriga caiu 48%, o Inovagro recuou 33%, enquanto o Pronamp, direcionado ao médio produtor rural, diminuiu 34%, saindo de R$ 5,49 bilhões para R$ 3,65 bilhões.
Segundo a Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, a retração está associada à cautela do setor diante das taxas de juros elevadas, dentro de um cenário que ainda aguarda redução da taxa Selic até o fim de 2026.
Industrialização ganha espaço no financiamento do agro
Enquanto investimento e comercialização perderam força, um segmento apresentou expansão acelerada: a industrialização agrícola. As contratações destinadas a essa finalidade atingiram R$ 22,2 bilhões, crescimento de 56%, o maior entre todas as categorias de financiamento rural.
Nas concessões, o avanço foi semelhante. O volume liberado chegou a R$ 21,5 bilhões, alta de 51%. A expansão indica maior interesse em financiar etapas de processamento, armazenamento e agregação de valor na cadeia agroindustrial.
O avanço do crédito rural no Plano Safra revela, portanto, menos uma expansão homogênea do financiamento e mais uma transformação silenciosa na arquitetura financeira do agro brasileiro. Instrumentos como CPR, mercado de capitais, financiamento privado, tradings agrícolas, bancos rurais e títulos do agronegócio ganham espaço. Ao mesmo tempo, linhas voltadas à modernização produtiva, máquinas agrícolas e infraestrutura rural perdem ritmo. O resultado sugere que o crédito ao campo cresce, mas cada vez mais sustentado por estruturas financeiras de mercado.
Fonte : Flávia Lifonsino
Publicado em 09/03/2026 13:43
Atualizado em 09/03/2026 13:43
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