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Marabá sedia formação inédita para humanizar cuidados paliativos no Norte do Brasil

Os profissinais que participaram da formação de paliativistas em Marabá
Os profissinais que participaram da formação de paliativistas em Marabá

O debate sobre o alívio do sofrimento e o acompanhamento digno em doenças graves alcançou um novo patamar na região Norte do Brasil. Em uma iniciativa que busca transformar a percepção social sobre a terminalidade, a cidade de Marabá, no Pará, recebeu especialistas para discutir os avanços da Medicina Paliativa e a implementação de estratégias de suporte ao luto.

Durante entrevista à Rádio Correio FM 92,1, a enfermeira alemã Karin Schmid, precursora do movimento Last Aid no país, e a médica Lorena Agrizzi, referência nacional na área, detalharam os desafios locais. O encontro ocorreu em virtude da Formação de Facilitadores do Curso de Últimos Socorros, realizada em 23 de maio, evento que marca a descentralização desse conhecimento técnico para o interior paraense.

Humanização e alívio do sofrimento na medicina paliativa

Um dos principais pilares discutidos pelas especialistas é a desconstrução do estigma de que os cuidados paliativos são destinados apenas a pacientes sem chances de cura. A Dra. Lorena Agrizzi enfatizou que essa abordagem deve ser iniciada de forma precoce, logo no diagnóstico de condições que ameacem a continuidade da vida ou que gerem sofrimento intenso.

A visão paliativista moderna foca na vida e na qualidade do tempo restante, indo além do tratamento de sintomas físicos. Segundo a médica, a dor muitas vezes possui raízes espirituais, emocionais e psicológicas, exigindo uma equipe multiprofissional composta por psicólogos, fisioterapeutas e assistentes sociais para um suporte integral.

A atuação desses profissionais visa identificar o que ainda traz sentido ao paciente, como o simples desejo de voltar a sorrir ou conviver com familiares. Essa perspectiva amplia o conceito de cuidado para zonas de conflito ou vítimas de desastres ambientais, onde o sofrimento humano demanda intervenção imediata e humanizada.

Projeto Últimos Socorros capacita a sociedade civil

A enfermeira Karin Schmid apresentou a essência do projeto Last Aid, ou Últimos Socorros, que funciona de maneira análoga aos primeiros socorros tradicionais. O objetivo é capacitar cidadãos comuns para oferecer conforto e suporte a entes queridos que enfrentam a fase final da vida, devolvendo à comunidade um papel que foi historicamente hospitalizado.

O curso, com duração de quatro horas, aborda questões práticas e emocionais, ajudando a quebrar o tabu do isolamento do doente terminal. Karin ressaltou que a sociedade desaprendeu a lidar com a morte, gerando insegurança sobre como visitar ou ajudar alguém em cuidados de fim de vida.

  • Orientações sobre conforto físico e higiene;
  • Suporte emocional para o paciente e familiares;
  • Reflexões sobre o processo de despedida;
  • Integração do cuidado no ambiente domiciliar.

A iniciativa busca garantir que a morte não seja um evento solitário em uma UTI, mas um processo acompanhado de afeto e dignidade. A formação de facilitadores em Marabá permite que esse conhecimento seja replicado, fortalecendo a rede de apoio comunitário na região.

Atenção integral à família e o impacto das demências

A medicina paliativa estende seu olhar para além do paciente, focando também na saúde de quem cuida. O conceito de “dono do paciente” foi debatido como um alerta para o adoecimento de cuidadores principais, especialmente em casos de doenças neurodegenerativas de longa duração, como o Alzheimer.

A Dra. Lorena Agrizzi explicou que o luto antecipatório é uma realidade comum nessas patologias, onde a família começa a se despedir da personalidade do paciente muito antes do falecimento físico. O suporte profissional é vital para evitar que o cuidador entre em colapso emocional após anos de dedicação exclusiva.

Karin Schmid complementou que doenças que impedem a comunicação verbal representam um dos maiores desafios da área. Nesses cenários, a sensibilidade da equipe técnica e da família torna-se a principal ferramenta para interpretar necessidades e garantir o bem-estar de quem já não consegue expressar sua dor por palavras.

Avanços legais e a nova Política Nacional de Cuidado Paliativo

O cenário brasileiro vive um momento de transição com a publicação da Política Nacional de Cuidado Paliativo. A medida assegura financiamento federal para a criação de equipes especializadas dentro do Sistema Único de Saúde (SUS), transformando o acesso a esse serviço em um direito garantido por lei.

No Pará, a implementação enfrenta desafios geográficos e logísticos típicos da Amazônia. A Secretaria de Estado de Saúde Pública (SESPA) trabalha no desenvolvimento de estratégias que considerem as distâncias fluviais e as particularidades das populações locais para levar a assistência paliativa a todos os territórios.

Para mais informações sobre as diretrizes nacionais, é possível consultar o portal da Academia Nacional de Cuidados Paliativos. A expectativa é que o conhecimento básico em paliativismo seja integrado desde a atenção primária nos postos de saúde até os hospitais de alta complexidade, garantindo uma rede de proteção contínua ao cidadão.

Fonte: correiodecarajas.com.br

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