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Vaticano excomunga bispos de grupo tradicionalista; entenda o cisma e sua presença no Brasil

Reuters
Igreja da Fraternidade Sacerdotal São Pio X em São Paulo: congregação tradicionalista reza missas em latim

Em um decreto, o Dicastério para a Doutrina da Fé — principal órgão de supervisão doutrinária da Igreja — alertou os católicos de todo o mundo que a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, sediada na Suíça, celebra seus sacramentos de forma ilícita. Os seus seguidores são conhecidos como lefebvrianos, por obedecerem as doutrinas do arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905 – 1991).

Com a excomunhão, os religiosos ficam impedidos de receber os sacramentos até que se arrependam e peçam perdão.

O decreto informou que os dois bispos — Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay — que conduziram a ordenação não autorizada, realizada na Suíça na quarta-feira, foram excomungados, juntamente com os quatro padres que se tornaram novos bispos: Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier.

O Vaticano declarou que todos os padres da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X e todos os católicos que “aderem formalmente” ao grupo encontram-se agora em cisma e excomungados.

“Cisma” é o termo utilizado para indicar uma ruptura grave e formal no seio da comunidade católica.

O decreto diz que o grupo ultratradicionalista não poderá celebrar casamentos nem ouvir confissões de forma válida.

Na quarta-feira (01/07), apesar de apelos de última hora do papa Leão 14, a Fraternidade Sacerdotal de São Pio X havia declarado que precisava prosseguir com as ordenações sem a aprovação papal “devido a circunstâncias excepcionais”.

Mas quem são os lefebvrianos?

Foto tirada do fundo da igreja mostra fiéis de costas distribuídos entre os bancos de uma pequena capela. As mulheres têm a cabeça coberta por lenços.
Igreja da Fraternidade Sacerdotal São Pio X em São Paulo: congregação tradicionalista reza missas em latim

Depois de um silêncio solene, o som de sinos e um cheiro forte de incenso anunciaram o início da missa das 9h na pequena capela da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, no último domingo de Pentecostes, no fim de maio.

O padre entrou com seus diáconos pelo corredor principal carregando um turíbulo, um objeto de metal com correntes que ele balançava para frente e para trás, como uma espécie de metrônomo no ritmo das preces que recitava de forma melodiosa em latim.

Parou de frente para o altar e lá ficou por cerca de uma hora, os olhos voltados para o Jesus crucificado, as flores e os castiçais sobre o altar enquanto celebrava a cerimônia.

Atrás dele, casa cheia: com os bancos todos ocupados, os fiéis se amontoavam de pé nas laterais da igreja e nas escadas que davam para o mezanino do segundo andar. A maioria não precisava da ajuda dos livrinhos de traduções disponíveis no caixote na entrada para acompanhar as rezas em latim.

Tirando o vermelho com dourado das vestes do padre, predominavam as cores sóbrias. As mulheres e meninas vestiam saias e vestidos longos e usavam lenços de renda para cobrir os cabelos.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é uma das congregações que se recusam a aceitar as reformas modernizantes que o Vaticano fez nos anos 1960. Continua celebrando missas como no período medieval, em latim, com o padre de costas para os fiéis na maior parte do tempo.

Marcel Lefebvre consagra quatro bispos prostrados diante dele em uma cerimônia em Éconé, na Suíça, em 1988
Consagração dos novos bispos em 1988 por Marcel Lefebvre, fundador da FSSPX/Foto: Reuters

Nos últimos dias, já se sabia que o grupo nomearia novamente bispos, contra a autorização do Vaticano.

Na missa da Vila Mariana, no breve momento em que falou português, o padre convidou os fiéis que quisessem se juntar à comitiva brasileira a irem ao evento de ordenação na quarta-feira na cidade suíça de Écône. E pediu a todos orações pelos novos bispos.

A Santa Sé já havia avisado que as sagrações sem consentimento papal seriam interpretadas como uma ruptura formal com a Igreja — e que seriam novamente punidas com excomunhão.

Por que agora então?

Detalhe de uma página de um livro disponível aos fiéis da Fraternidade Sacerdotal São Pio X com traduções do latim para o português
Livretos reunidos em um caixote na entrada da igreja traduzem parte dos rituais para o português

Choque entre tradição e modernidade

Até aquela data, o padre só rezava em latim, mesmo que os fiéis não entendessem o que ele falava, e a leitura e interpretação da Bíblia estava concentrada nos membros da hierarquia da Igreja, como sacerdotes e bispos.

Com o concílio, a língua oficial passou a ser o idioma local de cada paróquia. A Igreja começou a incentivar a aproximação dos fiéis da Bíblia, a formação de grupos leigos de leitura dos textos religiosos, e se abriu “ao diálogo com as religiões não cristãs e à liberdade de consciência [a ideia de que a religião é uma escolha individual e não deve ser imposta, por exemplo, pelo Estado]”, como explica Mérida.

Foi um movimento progressista, que desagradou a ala católica mais conservadora.

Uma dessas figuras foi o arcebispo francês Marcel Lefebvre, que em 1970 fundou na cidade suíça de Friburgo o Seminário Internacional São Pio X como uma reação a essas mudanças.

A ideia era que o local se tornasse um centro para formação de padres que desejassem conservar o modelo de Igreja “tradicional”, que existia antes do concílio.

Foi um entre diversos movimentos que nasceram em um período em que o moderno e o antigo entraram em choque no catolicismo. Segundo Mérida, mais de 40 mil padres deixaram o sacerdócio nessa época.

“Muitos padres e seminaristas entenderam que a Igreja estava num processo de ruptura para o nascimento de uma outra igreja, mais progressista, alinhada ao mundo moderno. Isso, de fato, causou muita confusão”, ressalta.

Da Suíça, a FSSPX se expandiu para a França, Alemanha, Estados Unidos, Argentina e até para a Oceania.

Fiéis reunidos após missa de domingo na calçada da Fraternidade Sacerdotal São Pio X
Fiéis reunidos após missa de domingo: capela em São Paulo começou com um imóvel doado no início dos anos 2000

A chegada no Brasil

Assim como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a Diocese de Campos também rejeitava o Concílio do Vaticano 2º e celebrava a missa tridentina, em latim.

As duas congregações eram bastante próximas, aliás. Um dos bispos da diocese, Dom Antônio de Castro Mayer, chegou a participar da ordenação dos bispos da Fraternidade e foi excomungado junto com Lefebvre em 1988.

Depois de anos de ruptura, contudo, em 2002 a diocese fez as pazes com o Vaticano. Aceitou a proposta de reconciliação do papa João Paulo 2º, que permitiu que seus párocos continuassem celebrando a missa tridentina, desde que finalmente aceitasse o Concílio Vaticano 2º.

“Os ‘padres de Campos’ pediram perdão e voltaram à plena comunhão com a Santa Sé — e por isso foram chamados de traidores pelos antigos aliados da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”, afirma Mérida.

Um grupo de fiéis que também desaprovou o aceno da diocese ao Vaticano e não queria mais assistir às missas celebradas por seus padres pediu então que a Fraternidade passasse a atuar no Brasil.

Via de regra, são os bispos das dioceses que determinam quando e onde uma nova igreja é aberta, mas como a FSSPX está em situação canônica irregular, ou seja, não está de acordo com as normas do Vaticano, essa decisão geralmente é tomada por iniciativa da própria Fraternidade quando há pedidos de devotos.

“Eles começaram então a atuar no norte fluminense, em São Paulo e na região Sul do Brasil”, diz o historiador, que há mais de 20 anos pesquisa sobre o catolicismo tradicional no país.

O Papa Leão 14 celebra missa na Basílica da Sagrada Família, durante sua viagem apostólica a Barcelona, na ​​Espanha, em 10 de junho de 2026.
Papa Leão 14 alertou a congregação de que as nomeações sem autorização seriam punidas com excomunhão/Foto: Reuters

“Além do crescimento da Fraternidade, existem os grupos dissidentes, que também não param de se dividir e multiplicar.”

O número é relativamente pequeno se comparado ao universo de 1,4 bilhão de católicos, mas representativo do avanço do chamado catolicismo tradicional. Não é o caso da Fraternidade, mas alguns desses grupos, ainda que pequenos, são bastante ativos nas redes sociais e influenciam o debate público em torno de pautas conservadoras.

O pesquisador explica que tanto a Fraternidade quanto os grupos tradicionalistas que não aceitam o concílio continuam sendo considerados católicos mesmo estando em situação canônica irregular porque o Vaticano, segundo ele, segue tentando promover uma reconciliação com eles.

Essa postura vai ser agora pela primeira vez testada no papado de Leão 14.

Imagem feita dos últimos bancos da igreja mostra capela lotada de fiéis
Além da capital paulista, Fraternidade está em outras 13 cidades no país

Restaram os livros à venda nas prateleiras, entre eles 1492: O fim da Barbárie, Começo da Civilização na América, do argentino Cristian Iturralde, que defende a colonização espanhola como um evento positivo para o continente americano.

Do mesmo autor, A Inquisição, Um Tribunal de Misericórdia, se propõe como uma resposta aos críticos dos tribunais religiosos criados pela Igreja Católica no período medieval com o objetivo de investigar, julgar e punir pessoas acusadas de heresias.

Na saída da missa, a reportagem tentou conversar com um dos padres que circulava entre os fiéis na calçada. Ele respondeu a algumas perguntas sobre a igreja — uma casa doada há quase 20 anos que passou por sucessivas reformas para ser ampliada —, mas afirmou que as questões relacionadas aos novos bispos deveriam ser tratadas com o Padre Juan María de Montagut Puertollano, superior da congregação no Brasil.

(Fonte: BBC News)

O post Papa excomunga bispos de grupo católico que reza missa em latim e com padre de costas: como é o movimento no Brasil apareceu primeiro em Correio de Carajás.

Fonte: correiodecarajas.com.br

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