A Polícia Federal (PF) direcionou suas investigações para o filho de um ex-governador, em uma fase de uma operação que apura um suposto esquema de contravenção. O ex-deputado federal é suspeito de integrar um “núcleo político-administrativo” de uma rede atribuída a um bicheiro, apontado como líder de uma máfia. As autoridades realizaram buscas na residência do ex-deputado como parte da apuração.
As investigações sugerem que esse braço da organização teria como função facilitar o “trânsito administrativo e a utilidade econômica” do esquema, articulando operadores financeiros, empresas e agentes com influência no poder público. A PF acredita que o bicheiro teria distribuído valores a autoridades em troca de proteção. Planilhas apreendidas com o contraventor teriam registrado repasses associados a políticos e candidatos, operacionalizados por meio de uma rede de empresas do setor gráfico.
A rede de empresas gráficas sob escrutínio
Um dos principais indícios levantados pela Polícia Federal contra o ex-deputado federal é a sua conexão com gráficas que estão sob suspeita. Em campanhas eleitorais, ele teria efetuado pagamentos significativos a duas empresas gráficas específicas. A primeira, uma gráfica e editora, recebeu um valor considerável em uma campanha anterior. Quatro anos depois, outra empresa de representações gráficas recebeu um montante ainda maior para despesas de campanha.
Essas duas empresas são apontadas pelos investigadores como parte de um núcleo gráfico que teria sido estruturado para dispersar e reintroduzir na economia formal recursos oriundos de atividades ilícitas, como a contravenção e o contrabando de cigarros. Dezenas de outros candidatos também declararam gastos com as mesmas empresas à Justiça Eleitoral. Uma das gráficas movimentou milhões de reais em campanhas eleitorais em um período, sendo supostamente substituída por outra posteriormente. A segunda gráfica, por sua vez, recebeu milhões de reais de campanhas em uma única eleição.
As mesmas empresas também aparecem como fornecedoras de campanhas de outras figuras políticas influentes, incluindo um ex-presidente da Assembleia Legislativa e um ex-governador, ambos citados no inquérito. Embora a repetição de fornecedores não comprove, isoladamente, atos de corrupção, a Polícia Federal ressalta que o padrão reforça a hipótese de que as gráficas funcionavam como canais de circulação de valores no ambiente político-eleitoral.
Conexões políticas e familiares em foco
A investigação também destaca a proximidade do ex-deputado federal com outras figuras políticas envolvidas. Após deixar a Câmara dos Deputados, ele foi nomeado para um cargo em comissão na gestão do então presidente da Assembleia Legislativa, sendo exonerado após a prisão do aliado em uma fase da operação. Essa conexão é vista como um elo importante na teia de relacionamentos sob análise.
Outro ponto central que atraiu a atenção da Polícia Federal foi o sogro do ex-deputado, um empresário. Ele é incluído entre os supostos integrantes de um braço operacional que, em tese, dava suporte à ocultação patrimonial do bicheiro. O empresário aparece ligado a uma vasta rede de empresas, abrangendo setores como fintechs, meios de pagamento, comércio de veículos e táxi aéreo. Em algumas dessas empresas, consta como sócia a esposa de um policial civil suspeito de ter vínculos com o contraventor.
Além das relações comerciais e familiares, a investigação aponta para conexões sociais. Personalidades influentes da política, incluindo o próprio ex-deputado, constaram na lista de convidados de uma festa de aniversário milionária do bicheiro, realizada em um tradicional hotel. Rostos conhecidos da política também teriam circulado em um camarote supostamente ligado ao sobrinho do contraventor em um evento cultural de grande porte, conforme a Polícia Federal.
A defesa e o posicionamento do ex-deputado
A defesa do ex-deputado federal, procurada para comentar as acusações, afirmou que ele nunca teve qualquer relação comercial com os indivíduos investigados na operação. A advogada responsável destacou que a relação do ex-deputado com seu sogro é “estritamente familiar”.
Em relação à utilização das gráficas, a defesa argumenta que a empresa usada em uma campanha foi a mesma de uma anterior, e que se trata de uma das maiores gráficas do estado, que já prestou serviços para diversos candidatos a cargos eletivos e grandes empresas privadas. Sobre a presença em eventos sociais, a defesa rebateu que não há ilegalidade em ser convidado para uma festa com centenas de convidados. Em um vídeo divulgado em redes sociais após ser alvo da PF, o ex-deputado afirmou estar “de cabeça erguida” e que continuaria sua pré-campanha.
Diante da “natureza diversa, mas convergente” dos indícios, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) autorizou as buscas contra o ex-deputado. O material apreendido está atualmente sob análise das autoridades competentes. Para mais informações sobre as operações da Polícia Federal, clique aqui.
Fonte: veja.abril.com.br