A corrida eleitoral para o governo de Minas Gerais em 2026 ganha contornos de complexidade e incerteza, especialmente para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O cenário político no segundo maior colégio eleitoral do país se tornou um desafio estratégico para o campo governista, que busca consolidar um palanque forte para a disputa nacional. A indefinição se acentuou após a recente decisão do ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, de não concorrer a nenhum cargo e se afastar da política, frustrando as expectativas de Lula, que o via como um potencial “futuro governador” e um aliado crucial no estado.
A aposta em Pacheco, manifestada publicamente por Lula em junho de 2025 durante um evento em Mariana, na região central de Minas Gerais, representava a estratégia do Partido dos Trabalhadores (PT) para garantir apoio em um estado historicamente decisivo. Com a retirada de Pacheco, a menos de um mês do início das convenções partidárias, a busca por um nome viável se intensificou, abrindo uma disputa acirrada que já conta com múltiplos postulantes.
A busca por um palanque forte no campo lulista
Diante do vácuo deixado pela desistência de Rodrigo Pacheco, o campo lulista em Minas Gerais se mobilizou intensamente para encontrar um candidato capaz de representar os interesses do governo federal. O presidente nacional do PT, Edinho Silva, tem liderado uma série de reuniões com figuras políticas de diversas legendas e encomendado pesquisas para avaliar a viabilidade de potenciais nomes. Entre os cotados, destacam-se o deputado Reginaldo Lopes e a ex-reitora da UFMG Sandra Goulart, ambos filiados ao PT.
Outras opções consideradas incluem o ex-prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil (PDT), e o ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte, Gabriel Azevedo (MDB). O Partido Socialista Brasileiro (PSB), ao qual Pacheco era filiado, decidiu lançar candidatura própria, mas realizará prévias para definir seu representante. Quatro nomes estão na disputa interna do PSB: o empresário Josué Gomes, filho do ex-vice-presidente José Alencar; o ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais Jarbas Soares Júnior; o ex-prefeito de Moema Julvan Lacerda; e o ex-senador Clésio Andrade. Apesar da busca por um nome próprio, a aliança com o PT e com o presidente Lula permanece no horizonte do partido.
A maioria desses pré-candidatos, no entanto, enfrenta um desafio significativo: o baixo reconhecimento junto ao eleitorado. A exceção é Alexandre Kalil, que, segundo pesquisas do Real Time Big Data de maio, alcança entre 14% e 18% das intenções de voto. Contudo, esse percentual ainda o mantém distante do favorito na corrida, Cleitinho Azevedo, que se aproxima dos 40%. Kalil, que já disputou o governo com o apoio de Lula em 2022, tem demonstrado relutância em repetir a aliança, especialmente após sua derrota no primeiro turno. Enquanto isso, nomes fortes do PT, como a ex-prefeita de Contagem Marília Campos, que é vista como favorita para o Senado, têm defendido uma aliança em torno de Gabriel Azevedo, buscando aliviar a pressão para que ela própria dispute o Palácio Tiradentes. O vereador do MDB, por sua vez, ainda registra números modestos nas pesquisas, variando entre 6% e 8% das intenções de voto. O deputado federal Reginaldo Lopes também afirmou não estar focado na eleição para o governo neste momento.
Desafios e indefinições no cenário bolsonarista
A incerteza política em Minas Gerais não se restringe apenas ao campo lulista. O cenário bolsonarista também enfrenta suas próprias indefinições. Mateus Simões, atual governador do estado e ex-vice de Romeu Zema até março, filiou-se ao PSD, partido do presidenciável Ronaldo Caiado, mas mantém alinhamento com Zema, que é presidenciável pelo Novo. Essa dualidade gerou um impasse, com Flávio Bolsonaro, conhecido como “Zero Um”, descartando uma aliança com Simões, afirmando que “o palanque dele já está montado”.
A prioridade do núcleo bolsonarista é consolidar o apoio a Cleitinho Azevedo, que lidera as pesquisas de intenção de voto. No entanto, Cleitinho tem evitado confirmar ou descartar sua candidatura, aumentando a incerteza. A situação se complicou após ele expressar publicamente sua desconfiança no presidente de seu partido, Marcos Pereira. Em resposta, Pereira afirmou que a sigla apoiará o projeto de Cleitinho, caso ele decida concorrer, mas sugeriu que o senador parece indeciso. Desde então, não houve novas conversas entre eles. Caso Cleitinho não se candidate, o Partido Liberal (PL) já tem um plano B: lançar um nome próprio, como o do empresário Flávio Roscoe.
A relevância estratégica de Minas Gerais na disputa nacional
O impasse em Minas Gerais contrasta com a situação de outros estados mais populosos do Brasil, onde os campos político-partidários ligados ao governo federal e à oposição já possuem candidaturas definidas. A resolução dessa situação em Minas Gerais possui uma relevância estratégica e simbólica inegável. O estado é o segundo maior colégio eleitoral do país, respondendo por 11% do eleitorado nacional, o que o torna um campo de batalha crucial para qualquer disputa presidencial.
Historicamente, Minas Gerais tem sido um termômetro eleitoral para o Brasil. Há 76 anos, o candidato à Presidência que obtém a vitória no estado é também aquele que triunfa na disputa nacional. Essa tradição confere um peso ainda maior à busca por um palanque forte e coeso. Na eleição anterior, a vitória de Lula sobre Jair Bolsonaro em Minas foi por uma margem mínima, de 50,2% a 49,8%, indicando a competitividade e a polarização do eleitorado mineiro.
Com uma eleição que promete ser novamente difícil, o presidente Lula se aproxima da reta final da pré-campanha sem um nome consolidado para o governo de Minas Gerais. Com tantos nomes em discussão e nenhum consenso à vista, a expectativa é que o drama em torno da definição do palanque mineiro se intensifique até as convenções partidárias, que se aproximam rapidamente.
Publicado em VEJA de 12 de junho de 2026, edição nº 2999
Fonte: veja.abril.com.br