A Polícia Federal (PF) revelou novos detalhes de uma investigação que aponta para um suposto esquema de pagamentos de propina envolvendo o senador Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro, proprietário do Banco Master. A apuração, parte da nova fase da Operação Compliance Zero, sugere que valores mensais eram destinados ao parlamentar em troca de favorecimento aos interesses do banqueiro no Congresso Nacional. A operação resultou em buscas e apreensões, além de uma prisão temporária.
As informações divulgadas pela PF indicam que a troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e seu primo, Felipe Cançado Vorcaro, foi crucial para desvendar a dinâmica dos alegados repasses. O caso levanta questões sobre a atuação de figuras públicas e empresariais em esquemas de corrupção, com implicações significativas para os envolvidos e para o cenário político nacional.
Investigação da Polícia Federal detalha esquema de pagamentos
A mais recente fase da Operação Compliance Zero focou na análise de comunicações entre Daniel Vorcaro e Felipe Cançado Vorcaro. Segundo a PF, esses diálogos revelam a forma como eram tratados os supostos pagamentos a Ciro Nogueira. O senador foi alvo de busca e apreensão na manhã desta quinta-feira, 7, em sua residência e gabinetes, enquanto Felipe Vorcaro teve sua prisão temporária decretada pelas autoridades.
A defesa de Ciro Nogueira, por sua vez, manifestou repúdio a qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar. A nota da defesa reitera o comprometimento do senador em colaborar com a Justiça para esclarecer os fatos e negar qualquer participação em atividades ilícitas, colocando-se à disposição para prestar esclarecimentos.
Mensagens revelam cobranças e valores da suposta mesada
A investigação da PF destaca que Felipe Cançado Vorcaro questionou Daniel sobre a continuidade dos pagamentos mensais a um “pessoal que investiu” na BRGD S.A., empresa sediada em Nova Lima (MG) e formalmente dirigida por Oscar Vorcaro, pai de Felipe. A PF aponta a BRGD como uma das principais fontes dos recursos movimentados no esquema, que supostamente destinava uma mesada de até R$ 500 mil ao senador.
Os investigadores indicam que a BRGD era utilizada para viabilizar repasses mensais ao parlamentar, que também foi ex-ministro da Casa Civil, por meio de uma “parceria BRGD/CNLF”. A CNLF Empreendimentos Imobiliários Ltda., segundo a apuração, era administrada formalmente por Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima, irmão do senador, que também foi alvo de busca e apreensão. A defesa de Raimundo Neto não se manifestou sobre as acusações.
Em uma das mensagens interceptadas, datada de 28 de janeiro de 2025, Felipe Vorcaro expressou preocupação com o fluxo de pagamentos, afirmando que “fluxo está indo praticamente todo para o btg e ainda estou precisando aportar valores altos todo mes”. Daniel Vorcaro respondeu no mesmo dia: “Resolve isso pra mim. Eu ponho dinheiro depois para repor.”
Meses mais tarde, em 30 de junho de 2025, Daniel Vorcaro cobrou Felipe sobre os pagamentos ao senador. “Cara eu no meio dessa guerra atrasou dois meses ciro?”, questionou o banqueiro. A resposta de Felipe foi: “Vou ver se dou um jeito aqui. Vai continuar os 500k ou pode ser os 300k?”, em referência aos valores da suposta mesada destinada a Ciro Nogueira.
Outros benefícios e a atuação dos envolvidos
Além dos pagamentos mensais, a investigação da Polícia Federal sugere que Daniel Vorcaro teria disponibilizado gratuitamente um imóvel de alto padrão ao senador por tempo indeterminado. Também são listados custos com hospedagens, deslocamentos e viagens internacionais de luxo. Entre os gastos citados, estão estadias em hotéis de luxo, como o Park Hyatt New York, e despesas em restaurantes de alto padrão atribuídas ao parlamentar e sua acompanhante.
A PF também menciona a disponibilização de um cartão voltado ao pagamento de despesas pessoais do senador. Em março deste ano, o jornal Estadão já havia revelado que a PF encontrara no celular de Vorcaro diálogos com o senador e ordens de pagamento para uma pessoa de nome Ciro, citado sem sobrenome. Naquela ocasião, o senador confirmou conhecer Vorcaro, mas negou proximidade e recebimento de pagamentos. Felipe Vorcaro é descrito na representação da PF como integrante do núcleo financeiro-operacional da organização criminosa.
Desdobramentos da operação e a defesa do senador
A operação desta quinta-feira foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, que também determinou o bloqueio de R$ 18,8 milhões em bens dos investigados. No total, a Polícia Federal cumpre dez mandados de busca e apreensão e um de prisão temporária. As ações ocorrem nos estados do Piauí, Distrito Federal, Minas Gerais e São Paulo, abrangendo os locais de residência e atuação dos envolvidos.
A defesa de Ciro Nogueira, em nota, reiterou que “repudia qualquer ilação de ilicitude sobre suas condutas, especialmente em sua atuação parlamentar”. A nota também questiona a base das medidas investigativas, afirmando que “medidas investigativas graves e invasivas tomadas com base em mera troca de mensagens, sobretudo por terceiros, podem se mostrar precipitadas e merecem a devida reflexão e controle severo de legalidade”. A defesa conclui que este tema deverá ser enfrentado tecnicamente pelas Cortes Superiores muito em breve.
Fonte: oliberal.com