A presença de fármacos humanos na vida marinha
Pesquisadores brasileiros identificaram a presença de sertralina, um dos antidepressivos mais prescritos no país, no tecido cerebral de tubarões-martelo capturados na costa do Rio de Janeiro. O achado, conduzido pelo projeto EcoShark, revela uma faceta preocupante da poluição oceânica: o impacto dos resíduos farmacológicos que atravessam o sistema de esgoto e chegam aos ecossistemas costeiros.
A substância, utilizada no tratamento de transtornos de humor, é metabolizada pelo organismo humano e descartada via excreção. Como as estações de tratamento de esgoto convencionais não foram projetadas para filtrar compostos químicos complexos, esses resíduos são despejados diretamente no oceano, onde entram na cadeia alimentar marinha.
O caminho da contaminação nos oceanos
O ciclo de contaminação começa com o consumo doméstico de medicamentos, seguido por um tratamento de efluentes insuficiente. No estado do Rio de Janeiro, uma parcela significativa do esgoto é lançada no mar por meio de emissários submarinos. Esse despejo ocorre sem a remoção de moléculas farmacêuticas, facilitando a absorção dessas substâncias por peixes e invertebrados.
Os tubarões-martelo, por serem predadores de topo, acumulam esses contaminantes ao longo de sua vida. A afinidade da sertralina por tecidos ricos em lipídios e pelo sistema nervoso central explica por que o fármaco foi detectado especificamente no cérebro desses animais, levantando questões sobre a bioacumulação em espécies criticamente ameaçadas.
Riscos para a neuroquímica e o comportamento animal
Embora a detecção da substância não confirme, por si só, alterações comportamentais imediatas nos tubarões, estudos laboratoriais com outras espécies de peixes demonstram efeitos preocupantes. A exposição à sertralina em níveis encontrados na natureza já foi associada a quadros de hipolocomoção e dificuldades de aprendizado em organismos aquáticos.
A neuroquímica dos tubarões, que apresenta semelhanças com a de mamíferos, torna o impacto desses poluentes emergentes uma incógnita científica. A preocupação central dos pesquisadores é entender se a exposição crônica a esses medicamentos pode interferir na sobrevivência e no equilíbrio ecológico desses predadores essenciais para a saúde dos oceanos.
Desafios para o saneamento e a conservação
O cenário expõe uma falha estrutural no saneamento básico brasileiro, que ainda não trata os fármacos como poluentes emergentes. A necessidade de modernizar as estações de tratamento e ampliar o monitoramento ambiental é urgente para mitigar os danos à biodiversidade marinha.
A pesquisa, que pode ser acompanhada em detalhes através da plataforma The Conversation Brasil, reforça que a crise de saúde mental humana e a crise de conservação marinha estão interligadas. O desafio atual é transformar o monitoramento científico em políticas públicas que protejam tanto a costa brasileira quanto as espécies que nela habitam.
Fonte: correiodecarajas.com.br