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Teatro Nacional D. Maria II reabre com Macbeth e desafia maldição histórica

Teatro Nacional D. Maria II reabre com Macbeth e desafia maldição histórica
Europa hoje

Após um período de quatro anos fechado para as mais profundas obras de requalificação das últimas décadas, o Teatro Nacional D. Maria II, localizado no Rossio, em Lisboa, reabre oficialmente as suas portas. A escolha da peça de estreia carrega um simbolismo carregado de história e superstição: Macbeth, a tragédia de William Shakespeare que estava em cena exatamente quando um incêndio devastou o edifício em 1964.

A decisão de retomar a obra, considerada por muitos no meio artístico como uma peça maldita, partiu do diretor artístico e encenador Pedro Penim. O espetáculo, que marca o 180º aniversário da instituição, utiliza elementos como fogo real em palco, transformando a encenação em um ato de provocação ao destino e uma homenagem à resiliência do espaço cultural.

O simbolismo da tragédia e a superação do trauma

Para Pedro Penim, a encenação de Macbeth funciona como uma forma de confrontar o trauma histórico que marcou o teatro. A peça, historicamente associada a acidentes de bastidores e infortúnios, foi evitada durante décadas no palco do D. Maria II. Ao trazê-la de volta, o encenador busca estabelecer um diálogo entre o passado catastrófico e a renovação técnica do edifício.

A produção enfrentou desafios logísticos inesperados, incluindo a impossibilidade de utilizar a tradução clássica de Manuel Bandeira, devido a questões de direitos autorais. Como solução, Pedro Penim assumiu a tradução do texto, focando em manter a métrica do decassílabo enquanto buscava uma linguagem acessível e poética para o público contemporâneo.

Reflexões sobre o mal na sociedade contemporânea

Além da carga histórica, a montagem propõe uma leitura atual sobre a natureza do mal. Segundo o encenador, a peça reflete a forma como a maldade se exibe sem pudor na sociedade do século XXI, seja através das telas dos telemóveis ou da exposição constante nas redes sociais e meios de comunicação.

A cenografia, assinada por Joana Sousa, integra a própria fachada do edifício do Rossio como elemento visual, reforçando a conexão entre o teatro e a obra. A presença da figura da rainha D. Maria II como personagem na peça sublinha a importância da identidade do local para a narrativa apresentada.

Modernização técnica e elenco de destaque

A reabertura é sustentada por melhorias estruturais significativas. O palco principal conta agora com sistemas rotativos e elevatórios, além de avanços em som, luz e mecânica de cena, permitindo uma execução técnica mais ambiciosa para a tragédia shakespeariana.

O elenco é liderado por José Raposo, no papel de Macbeth, e Bárbara Branco, como Lady Macbeth. Para José Raposo, a responsabilidade de protagonizar este retorno é intensificada pelo simbolismo da ponte histórica entre o incêndio de 1964 e a atualidade. A produção, que conta com quase todos os bilhetes esgotados, reafirma o papel central do teatro na vida cultural de Portugal.

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