A transição energética europeia enfrenta um desafio logístico e ambiental crescente: o destino das turbinas eólicas que atingem o fim da sua vida útil. Com a instalação recorde de 8,8 GW de nova capacidade no primeiro semestre de 2026, a indústria busca alternativas para evitar o desperdício de materiais, especialmente os compósitos complexos que compõem as pás dos aerogeradores.
A empresa sueca Vattenfall, em parceria com o estúdio de design Superuse, apresentou uma solução inovadora ao converter a nacele — a estrutura que abriga os componentes mecânicos de uma turbina — em uma residência compacta. O projeto, exibido na Dutch Design Week de 2024, demonstra como componentes industriais de grande escala podem ser reaproveitados com baixo impacto ambiental.
Reaproveitamento criativo de naceles e pás
A mini-casa desenvolvida pela colaboração possui quatro metros de largura, 10 de comprimento e três de altura. O espaço foi equipado com tecnologias de eficiência energética, incluindo bomba de calor, painéis solares e sistema de aquecimento solar de água, transformando um componente anteriormente posicionado no topo de uma torre austríaca em um ambiente habitável funcional.
Além das naceles, as pás das turbinas também estão ganhando novos propósitos. Em 2023, 57 pás do parque eólico de Nørre Økse Sø, na Dinamarca, foram reaproveitadas como elementos estruturais na fachada de um edifício de estacionamento na cidade de Lund. Essas iniciativas buscam estimular o mercado de economia circular antes que o volume de resíduos aumente drasticamente.
Desafios técnicos na reciclagem de compósitos
Embora cerca de 90% da massa de uma turbina, como aço e cobre, seja facilmente reciclável, as pás representam um obstáculo técnico. Elas são fabricadas com uma mistura densa de fibra de vidro, fibra de carbono e resinas epóxi, projetadas para suportar condições climáticas extremas por até 25 anos.
Segundo Eva Julius-Philipp, diretora de Ambiente e Sustentabilidade da Vattenfall, os processos atuais de separação desses materiais exigem altas temperaturas e alto consumo energético. A empresa tem investido em métodos como a reciclagem mecânica, que transforma o material em aparas, e a pirólise, um processo térmico que permite a recuperação de fibras secundárias.
Rumo à circularidade total até 2030
A estratégia da companhia para atingir a circularidade total dos materiais compósitos até 2030 envolve uma combinação de reutilização, renovação e reciclagem. A meta é evitar o envio de componentes para aterros, uma prática proibida pela empresa desde 2021.
O maior desafio para a escalabilidade dessas soluções, conforme aponta a Euronews, é a falta de um fluxo previsível de materiais desmantelados. À medida que a primeira geração de grandes parques eólicos europeus for desativada, a indústria espera que a oferta constante de pás usadas viabilize economicamente novas tecnologias de processamento em larga escala.