A ilha de Maiorca foi palco de uma impressionante manifestação ambiental, onde cerca de 10 mil pessoas formaram um cordão humano ao longo da costa de sa Ràpita. O protesto, que se estendeu por mais de 2,5 quilómetros na água, visou alertar para os perigos de uma nova legislação que, segundo os organizadores, ameaça a proteção do Parque Natural de es Trenc-Salobrar de Campos. A ação, realizada no domingo, 5 de julho de 2026, reuniu cidadãos de diversas gerações e localidades da ilha, unindo-os na defesa de um dos seus mais emblemáticos espaços naturais.
Desde as primeiras horas da manhã, autocarros fretados e veículos particulares convergiram para a estância costeira de sa Ràpita, no sul de Maiorca, evidenciando a mobilização popular. O parque de estacionamento do Clube Náutico encheu-se rapidamente, e os participantes distribuíram-se pela praia, formando uma linha contínua que, em alguns trechos, teve de contornar áreas mais profundas. Este ato simbólico sublinhou a profunda preocupação da população com o futuro do património natural balear.
A controvérsia da lei ómnibus e o futuro da proteção em Maiorca
O cerne do protesto reside numa disposição da chamada “lei ómnibus”, que altera mais de cinquenta leis autonómicas e, crucialmente, modifica o regime jurídico do Parque Natural de es Trenc-Salobrar de Campos. A principal alteração, descrita pelos grupos ecologistas como uma “deslegalização”, transfere para o Consell de Govern a capacidade de modificar por decreto as normas do parque, incluindo o Plano Diretor de Uso e Gestão, sem a necessidade de aprovação parlamentar. Este plano é fundamental para definir o que pode ou não ser feito dentro do espaço protegido.
Os manifestantes expressam receio de que esta mudança administrativa abra caminho para uma “ofensiva desreguladora”, colocando em risco grande parte do território de Maiorca. O escritor Sebastià Alzamora, que leu o manifesto do protesto, denunciou que a lei prepara o terreno para a criação de “um Magaluf no sul da ilha”, com a instalação de parques de estacionamento, bares de praia e outros serviços turísticos em áreas atualmente intocadas. Além disso, a lei prevê a ampliação de zonas para bares de praia, a redução dos prazos de participação pública em modificações de planos de parques naturais e a abertura à pesca profissional e recreativa em áreas antes restritas.
O governo das Baleares defende a medida
Em resposta às acusações, o governo das Ilhas Baleares, liderado por Marga Prohens, rejeita a interpretação dos ecologistas. A presidente tem afirmado que a única mudança real é a via administrativa para a tramitação das alterações do parque, e que es Trenc “está, esteve e continuará a estar protegido”. O porta-voz do Executivo, Antoni Costa, classificou as acusações de desproteção como “mentiras”, argumentando que a medida apenas equipara o funcionamento deste parque ao dos restantes espaços protegidos do arquipélago.
No entanto, os coletivos presentes na manifestação insistem que o problema não reside nas ações imediatas, mas sim no precedente e no instrumento que o governo estabelece para o futuro. Fontes do GOB Mallorca indicaram que veem estas alterações como parte de uma estratégia de longo prazo, que pode vir a afetar não apenas es Trenc, mas também outros espaços naturais de valor comparável, como a Serra de Tramuntana, s’Albufera, Mondragó ou sa Dragonera, através do mesmo mecanismo de modificação por decreto.
Es Trenc: um símbolo de resistência ambiental
A mobilização em defesa de es Trenc não é um fenómeno recente na história de Maiorca. O local tornou-se um símbolo central da luta ecologista balear, superando até mesmo outros espaços de valor ambiental similar. Em 1983, mais de 10 mil pessoas já haviam enchido o centro de Palma para impedir um projeto urbanístico que visava construir sobre as dunas da praia. Mais tarde, em 2012, ocorreu a primeira corrente humana contra um projeto de hotel e campo de golfe em sa Ràpita.
Cada uma dessas décadas trouxe o seu próprio conflito, mas a resposta cidadã tem sido consistente, reunindo milhares de pessoas de diferentes gerações em torno da proteção de es Trenc, com as suas dunas, salinas e quase dois quilómetros de praia virgem. O protesto de 5 de julho de 2026 insere-se, assim, num ano particularmente tenso no que diz respeito à relação entre turismo e território em Maiorca, refletindo uma crescente preocupação com a sustentabilidade e a preservação ambiental da ilha. A resistência popular demonstra a importância que a comunidade atribui à salvaguarda destes ecossistemas únicos.