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Milhões enfrentam catástrofe humanitária no Sudão, ignorados pela atenção global

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Reprodução Euronews

Mais de dois anos após o início do conflito, o Sudão continua a ser palco de uma das maiores e mais complexas crises humanitárias do mundo. Apesar da escala devastadora, que já forçou milhões a abandonar suas casas e ceifou centenas de milhares de vidas, a situação no país africano raramente ganha destaque nas manchetes da mídia global, deixando milhões de pessoas à margem da atenção internacional.

Na fronteira com o Sudão do Sul, uma rota crucial para aqueles que buscam refúgio, organizações humanitárias trabalham incansavelmente para oferecer suporte a pessoas que fogem de bombardeamentos, da fome e da violência. Muitos chegam com pouco mais do que a roupa do corpo, tendo vendido todos os seus bens para custear o transporte ou comprar alimentos, muitas vezes completando a jornada a pé, sob temperaturas escaldantes e sem acesso a água por semanas.

O impacto devastador da guerra e o êxodo forçado

A guerra, que eclodiu no Sudão em 15 de abril de 2023, entre as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as Forças de Apoio Rápido (RSF), desencadeou uma catástrofe sem precedentes. Estima-se que o conflito já tenha resultado em aproximadamente 400 mil mortes e forçado mais de 13 milhões de pessoas a fugir de suas casas, tornando-se uma das maiores crises de deslocamento do século XXI.

A jornada dos refugiados é marcada por privações extremas. Muitos atravessam o deserto a pé, enfrentando temperaturas que chegam a 40 graus Celsius, sem abrigo, comida ou água. A exaustão e a desidratação são companheiras constantes, e a chegada à fronteira, embora represente uma esperança, é apenas o início de novos desafios em centros de receção sobrelotados.

A linha de frente da ajuda humanitária no Sudão do Sul

Desde maio de 2025, a organização humanitária polaca Polska Akcja Humanitarna (PAH) atua na zona fronteiriça, em parceria com uma organização local nos condados de Renk e Manyo, no extremo norte do Sudão do Sul. Este posto fronteiriço em Renk é a principal porta de entrada para a maioria das pessoas que fogem da guerra no Sudão, com mais de um milhão de indivíduos já tendo passado por ali.

A coordenadora de programas da PAH, Joanna Lenartowicz, que trabalha no Sudão do Sul desde abril deste ano, explica que o projeto se concentra em fornecer cuidados médicos básicos, alimentação para crianças até 5 anos, mães lactantes e mulheres grávidas. Nos centros de receção, a prioridade é garantir água, comida, abrigo e assistência médica essencial, embora as condições continuem a ser precárias.

Garantindo acesso à água e saneamento em áreas de conflito

Uma das necessidades mais urgentes e críticas é o acesso à água potável. A PAH tem se dedicado a reabilitar redes de distribuição de água e a instalar novos sistemas de tratamento que captam água do Nilo e a direcionam para clínicas e comunidades. Além disso, a construção de latrinas é fundamental, visto que cerca de 60% das pessoas pratica defecação ao ar livre, um fator que agrava a contaminação da pouca água disponível, especialmente na estação das chuvas, e contribui para a propagação de doenças como tifo, diarreia aquosa e cólera. A organização também constrói incineradoras para resíduos médicos, essenciais em um contexto onde a infraestrutura de saúde foi amplamente destruída pela guerra.

Para mais informações sobre a crise humanitária e os esforços de ajuda, consulte organizações internacionais como o ACNUR.

Educação em higiene e a vulnerabilidade das mulheres

Além da construção de infraestruturas, a educação comunitária desempenha um papel vital na prevenção de doenças. A PAH forma os chamados “promotores comunitários de higiene”, indivíduos escolhidos pelas próprias comunidades que recebem treinamento sobre a propagação e prevenção das doenças mais comuns. Esses promotores visitam as casas várias vezes por semana para sensibilizar e informar suas comunidades, um esforço crucial em áreas com alto risco de epidemias.

As histórias mais dramáticas frequentemente envolvem mulheres, muitas das quais fogem sozinhas com os filhos, tendo perdido contato com seus maridos ou os deixado para trás no Sudão. Essas mulheres enfrentam semanas de caminhada, dormindo ao relento sob calor intenso, sem água ou comida, o que as expõe a um risco ainda maior de violência. A violência sexual é, infelizmente, um dos métodos de terror mais utilizados durante o conflito no Sudão, uma realidade que as vítimas raramente conseguem verbalizar nas primeiras interações com os trabalhadores humanitários.

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