A corrida eleitoral se aproxima de um de seus momentos mais decisivos: o período das convenções partidárias, que se estende de 20 de julho a 5 de agosto. Nessas reuniões, as legendas definirão seus candidatos e, crucialmente, as alianças que sustentarão suas campanhas. Contudo, o cenário atual na centro-direita brasileira é de grande incerteza, com mais questões em aberto do que resoluções firmes, especialmente no que tange ao apoio a candidaturas presidenciais.
Enquanto partidos com candidaturas próprias ao Planalto exibem posições claras, a maioria das agremiações, muitas delas com expressivas bancadas no Congresso, ainda hesita. Essa cautela é impulsionada por dúvidas sobre a viabilidade de certas candidaturas e pela complexidade de assumir um compromisso nacional em uma etapa tão inicial da disputa. A prioridade, para muitos, tem se deslocado para a construção de palanques estaduais e a formação de sólidas bancadas legislativas.
Alianças nacionais: a cautela da centro-direita
A federação União Brasil-PP, que detém a maior bancada na Câmara, exemplifica a prudência que domina a centro-direita. Os partidos ainda não agendaram sua convenção nacional, onde decidirão se apoiarão a candidatura de Flávio Bolsonaro ou se manterão uma posição de neutralidade, que atualmente parece prevalecer. Internamente, a estratégia já está definida: focar nos estados e na formação de uma robusta representação legislativa.
O PP, que em 2022 esteve alinhado com Jair Bolsonaro desde o primeiro turno, demonstra reservas quanto a um novo apoio ao seu filho. O presidente da sigla, Ciro Nogueira, que chegou a ser cotado para vice, hoje resiste à aliança. Essa postura é influenciada pela percepção de falta de apoio após uma operação da Polícia Federal em maio, relacionada a um escândalo financeiro. Qualquer aliança ainda dependeria do crivo do União Brasil, e entraves regionais, como os apoios a Lula na Paraíba e no Amapá, complicam ainda mais o quadro.
Republicanoss sob pressão: Tarcísio de Freitas e entraves regionais
Diante dos desafios, o Republicanos emergiu como o principal alvo das articulações do PL. Embora a legenda tenha apoiado Jair Bolsonaro em 2022, há menor disposição para repetir o alinhamento. No entanto, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, defende o apoio formal à candidatura de Flávio Bolsonaro, o que transformaria seu compromisso pessoal em uma posição institucional do partido. A convenção nacional do Republicanos está prevista para os dias 3 ou 4 de agosto, próximo ao limite legal, e as negociações devem se estender até o último momento.
O principal obstáculo reside nos acordos regionais. O presidente da sigla, deputado Marcos Pereira, condicionou o apoio a construções estratégicas nos estados. Enquanto no Espírito Santo o PL pode apoiar Lorenzo Pazolini (Republicanos) ao governo, em Mato Grosso a decisão do PL de lançar Wellington Fagundes contra Otaviano Pivetta (Republicanos) gerou atrito. Em Pernambuco, o Republicanos já garantiu apoio a Lula por meio de Silvio Costa Filho, presidente do diretório estadual.
O dilema da vice e as articulações nos bastidores
A escolha do candidato a vice de Flávio Bolsonaro também é um ponto de intensa discussão. Daniella Marques, ex-presidente da Caixa e filiada ao Republicanos, é uma das opções preferidas pelo candidato, mas enfrenta resistências. No Republicanos, a avaliação é de que o posto deveria ser ocupado por alguém com trajetória mais consolidada. No PL, busca-se um nome que agregue votos e amplie o alcance eleitoral.
Recentemente, um ruído nas negociações elevou a temperatura: a divulgação de que o apoio do Republicanos estaria condicionado a uma futura indicação de Marcos Pereira ao Supremo Tribunal Federal. O deputado negou o acordo e afirmou que levantamentos internos indicam um “sentimento de frustração” com a candidatura de Flávio Bolsonaro, sugerindo preferência pela neutralidade. A definição, contudo, deve ser postergada até os últimos dias antes da convenção.
Outras legendas: Podemos, PSDB e MDB buscam neutralidade estratégica
A hesitação não se restringe às maiores legendas. O Podemos, que ensaiou uma aproximação com o PL, reduziu o ritmo das conversas e deve anunciar sua provável neutralidade na convenção de 2 de agosto. O PSDB, após desistir da candidatura de Aécio Neves ao Planalto, prioriza a reorganização interna e o fortalecimento de suas bancadas estaduais, diminuindo o interesse em um alinhamento nacional.
No MDB, a estratégia de neutralidade na disputa presidencial já está consolidada, com a convenção nacional marcada para 27 de julho. O partido foca em alianças estaduais, repetindo a lógica de eleições anteriores. Enquanto em São Paulo o MDB se aproxima da centro-direita, em estados como Minas Gerais, Pará e Alagoas mantém acordos com o PT.
Análise política: polarização e fragmentação ditam o ritmo das decisões
Cientistas políticos apontam que a demora nas definições é resultado de uma combinação de fatores. Primeiramente, partidos de centro-direita tradicionalmente evitam compromissos antes de ter clareza sobre as chances de vitória dos candidatos, e a candidatura de Flávio Bolsonaro ainda enfrenta incertezas. Em segundo lugar, o cenário de forte polarização política reduziu o espaço para alternativas competitivas.
Carlos Pereira, cientista político e professor da FGV, observa que “os partidos ficam em uma espécie de camisa de força: não veem uma terceira via viável, mas também hesitam em assumir desde já o custo de embarcar em uma candidatura que enfrenta incertezas”. Ele acrescenta que o sistema partidário brasileiro, fragmentado e diverso, possui características regionais, tornando a imposição de um apoio nacional menos eficaz do que a construção de alianças informais nos estados.
A indefinição não é exclusiva de Flávio Bolsonaro. Lula, embora com o apoio consolidado dos principais partidos de esquerda, também não conseguiu atrair novas legendas de centro para uma aliança nacional, concentrando suas negociações nos estados. Candidatos como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) igualmente não ampliaram seus arcos de alianças, mantendo-se sustentados por seus próprios partidos. O PSD, por exemplo, anunciou uma chapa puro-sangue com Gilberto Kassab como vice, mas permite que governadores apoiem quem julgarem mais conveniente, replicando a estratégia de 2022.
Fonte: veja.abril.com.br