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Resgate no Pará: homem de 65 anos é libertado após oito anos em trabalho análogo à escravidão

Resgate no Pará: homem de 65 anos é libertado após oito anos em trabalho análogo à escravidão
Reprodução Portalofato

Um trabalhador de 65 anos foi resgatado em condições análogas à escravidão durante uma operação realizada em uma propriedade rural isolada no interior da Estação Ecológica Terra do Meio, uma unidade de conservação federal situada em Altamira, no sudoeste do Pará. O caso, que revelou a situação de um homem vivendo em completo isolamento por oito anos, foi confirmado pela Auditoria-Fiscal do Trabalho (AFT).

A ação de resgate, que ocorreu no último dia 14 de julho, contou com a participação conjunta do Ministério Público do Trabalho (MPT), da Defensoria Pública da União (DPU) e da Polícia Federal (PF). As investigações que levaram à operação tiveram origem em denúncias registradas durante inspeções anteriores realizadas pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e pelo Ministério Público do Trabalho, evidenciando a persistência de irregularidades na região.

Oito anos de isolamento e exploração na Amazônia

A fiscalização constatou que o homem vivia há oito anos completamente isolado na propriedade, sem acesso a recursos básicos como água potável, alimentação adequada, atendimento médico ou condições mínimas de dignidade. Desde novembro de 2018, ele era o único responsável pela manutenção da fazenda, desempenhando atividades como vigilância, conservação da pista de pouso, manejo de animais e cultivo de pequenas lavouras para sua própria subsistência.

O acesso ao imóvel era extremamente restrito, possível apenas por via aérea ou fluvial, dada a localização remota em uma área cercada por floresta. Para alcançar o local, a equipe de resgate utilizou um helicóptero da Polícia Federal, em um voo de aproximadamente duas horas a partir de Altamira, sublinhando a dificuldade de fiscalização e o grau de isolamento do trabalhador.

Condições desumanas de moradia e subsistência

Entre as irregularidades mais graves, a ausência de água potável se destacava. O trabalhador consumia água retirada diretamente do rio Pardo, armazenada em recipientes reutilizados de óleo lubrificante. Mesmo após a decantação da lama, a água permanecia turva e imprópria para consumo, expondo-o a riscos de saúde.

A alimentação era igualmente precária e limitada. Segundo o relato do trabalhador, o empregador enviava esporadicamente apenas arroz, feijão, óleo, sal e alguns temperos. Ele afirmou ter passado anos sem consumir carne bovina ou de frango, complementando sua dieta com piranhas pescadas no rio, das quais utilizava apenas a cabeça para consumo próprio, destinando o restante aos porcos criados na propriedade.

Em um período, ele chegou a permanecer cerca de três meses sem receber mantimentos, sobrevivendo exclusivamente de abóboras cultivadas na propriedade e de piranhas preparadas apenas com óleo e sal. Apesar da situação, o idoso hesitou em abandonar o trabalho por receio de perder seus direitos trabalhistas, uma preocupação comum entre trabalhadores em vulnerabilidade.

Moradia degradante e falta de saneamento básico

As condições de moradia eram igualmente degradantes. O trabalhador vivia sozinho em um barraco de madeira com paredes cheias de frestas, telhado com goteiras e piso parcialmente de terra batida. Sua cama era coberta por detritos, e o espaço era dividido com lixo acumulado, criando um ambiente insalubre.

A cozinha era uma estrutura improvisada, aberta em duas laterais, o que a deixava exposta à entrada de animais e vetores. Os alimentos eram armazenados sobre uma mesa suja, ao lado de ferramentas de trabalho, e o preparo das refeições era feito em um fogão a lenha coberto por fuligem. Porcos circulavam livremente sob a residência, e a presença de cobras era frequente; o trabalhador relatou ter sido picado duas vezes por jararacas. Ele também passava parte das noites acordado para espantar morcegos que atacavam os animais da propriedade.

O banheiro da residência estava inutilizado havia aproximadamente quatro anos, forçando o trabalhador a fazer suas necessidades fisiológicas no mato. Para tomar banho, utilizava o rio, onde informou ter sido ferroado por arraias em duas ocasiões. A iluminação da casa era fornecida apenas por duas lâmpadas alimentadas por uma pequena placa solar, e o quarto onde dormia sequer possuía iluminação.

Vulnerabilidade social e o caminho para a dignidade

Além das condições de trabalho e moradia, a força-tarefa identificou que o trabalhador vive em situação de extrema vulnerabilidade social. Aos 65 anos, ele é analfabeto, possui deficiência auditiva severa e apresenta problemas de visão, agravando sua dependência e dificuldade de acesso a serviços.

O isolamento humano também foi um fator crítico. Segundo os auditores, os mantimentos chegavam apenas ocasionalmente, e o trabalhador chegou a passar até três anos sem manter contato com familiares, devido à inexistência de sinal de telefonia ou internet na região. Em um episódio, ele precisou caminhar aproximadamente 27 quilômetros por mata fechada durante cerca de um dia e meio para conseguir atendimento médico após sofrer fortes dores nos rins.

Após o resgate, os órgãos providenciaram a emissão de uma nova carteira de identidade, inscrição no CPF, encaminhamento para atendimento médico e o início dos procedimentos para solicitação de benefício previdenciário ou assistencial. Também foram fornecidos roupas, alimentos, produtos de higiene pessoal e um telefone celular, permitindo que o homem restabelecesse contato com familiares residentes no Maranhão, em Goiás e em São Félix do Xingu (PA), município onde permanecerá após o resgate. Para mais informações sobre o combate ao trabalho análogo à escravidão, consulte fontes oficiais como o Ministério do Trabalho e Emprego.

Durante a operação, a Auditoria-Fiscal do Trabalho informou que foi firmado um Termo de Ajuste de Conduta (TAC), prevendo o pagamento das verbas rescisórias e indenização por danos morais ao trabalhador. Além disso, foram emitidas as guias para acesso ao seguro-desemprego e adotadas outras medidas para assegurar os direitos trabalhistas e sociais da vítima, marcando o início de sua recuperação e reintegração social.

Fonte: portalofato.com.br

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