O sudeste paraense, que outrora conviveu com cenários de guerra urbana e ataques violentos a instituições financeiras, apresenta hoje uma realidade distinta. As notícias de investidas criminosas contra carros-fortes e agências bancárias, que aterrorizavam moradores em perímetros urbanos e rodovias, tornaram-se raras após um período de intensa atividade entre 2016 e 2023.
Dados da Divisão de Repressão e Combate ao Crime Organizado (DRCO) revelam que as regionais de Marabá, Redenção e Paragominas concentraram 23 ocorrências da modalidade conhecida como “novo cangaço”. O ápice da violência ocorreu em 2018, com 24 ações registradas, número que despencou para apenas um caso em 2023, consolidando uma tendência de queda iniciada em 2019.
Estratégia de descentralização fortalece segurança no sudeste paraense
A mudança no panorama da segurança pública é atribuída, em grande parte, à reestruturação dos órgãos estaduais. O delegado Antônio Mororó, superintendente regional da Polícia Civil em Marabá, aponta que a descentralização das forças foi o fator decisivo para desestimular o crime organizado na região.
Anteriormente, equipes de elite estavam concentradas na capital, o que retardava a resposta em cidades do interior. Com a instalação de unidades como o 34º Batalhão da Polícia Militar e o Batalhão Rural na Cidade Nova, além do apoio do grupamento aéreo local, o tempo de reação tornou-se muito mais ágil e eficiente.
O fortalecimento de unidades especializadas também elevou o nível de enfrentamento. Atualmente, a Coordenadoria de Operações e Recursos Especiais (Core) e o Batalhão de Missões Especiais atuam de forma próxima às áreas vulneráveis, garantindo uma presença estatal efetiva onde antes havia vácuo de policiamento.
Inteligência e unidades especializadas reduzem crimes do novo cangaço
O delegado Fausto Bulcão, que acompanhou a escalada criminosa pela DRCO, explica que grupos vindos do Ceará e Pernambuco se estabeleceram no Pará atraídos pelo fluxo financeiro do agronegócio e da mineração. A resposta do Estado passou pela integração de inteligência e logística pesada para neutralizar essas células.
As ações do tipo “vapor”, que envolviam o cerco a cidades e ataques a quartéis para impedir a saída de policiais, tornaram-se inviáveis diante do novo aparato tecnológico. O uso de aeronaves em Marabá permite o monitoramento de rotas de fuga e o deslocamento rápido de tropas para interceptar comboios criminosos em rodovias estratégicas.
A repressão qualificada elevou o custo operacional para os criminosos. O investimento em armamento pesado e logística complexa deixou de ser atrativo quando o risco de confronto com forças preparadas aumentou drasticamente, conforme detalhado em relatórios da Polícia Civil do Pará.
Digitalização financeira e PIX esvaziam cofres de carros-fortes
Além da eficiência policial, a transformação digital da sociedade desempenha um papel fundamental na redução da criminalidade violenta. A popularização do PIX e dos pagamentos digitais, acelerada pela pandemia, reduziu drasticamente a circulação de dinheiro em espécie nas agências e rodovias.
Heidiany Moreno, diretora do Sindicato dos Bancários em Marabá, observa que a demanda por transporte de valores caiu significativamente. Com menos cédulas físicas disponíveis, o alvo dos criminosos tornou-se menos lucrativo, forçando uma adaptação forçada das quadrilhas para outras modalidades de delitos.
Essa mudança alterou a rotina das agências bancárias, que agora operam com estruturas mais enxutas. A diminuição do volume de numerário físico reflete diretamente na menor frequência de circulação de veículos blindados, diminuindo as oportunidades para emboscadas em estradas como a BR-155.
Adaptação do crime organizado diante do alto custo operacional
O cenário atual não significa o fim da criminalidade, mas sim uma migração de perfil. O delegado Mororó ressalta que o crime é adaptável e acompanha a evolução da sociedade conectada. Embora os ataques físicos tenham caído, observa-se um crescimento nos crimes virtuais e golpes eletrônicos.
Entretanto, a transição de um assaltante de banco para o crime cibernético não é direta, pois exige habilidades técnicas distintas. O que se nota é um desestímulo às ações de campo devido ao rigor das punições e à eficácia das investigações que desarticulam o suporte logístico desses grupos.
A manutenção desse baixo índice de ocorrências depende da continuidade dos investimentos em inteligência. A integração entre as polícias Civil e Militar, somada à vigilância tecnológica, permanece como a principal barreira contra o retorno da violência que marcou a década passada no sudeste do Pará.
Fonte: correiodecarajas.com.br