Ajustes na oferta de ações e a busca por um novo investidor de referência
A Companhia de Saneamento de Minas Gerais, a Copasa, iniciou uma nova etapa em seu processo de desestatização após o insucesso das propostas iniciais. O governo mineiro estabeleceu o valor de R$ 47,23 como preço mínimo por ação, buscando alinhar as expectativas estatais com a realidade do mercado financeiro. Este movimento ocorre em um cenário de alta alavancagem das operadoras do setor e dúvidas persistentes sobre a viabilidade operacional da companhia a longo prazo.
A definição do valor ocorre após o mercado apresentar propostas abaixo do esperado, o que forçou a revisão do cronograma. A nova oferta visa atrair um acionista de referência, em um momento em que a empresa precisa equilibrar a atratividade para investidores com a necessidade de cumprir metas rigorosas de universalização dos serviços de saneamento básico até 2033.
Incertezas contratuais e o impacto na precificação da companhia
Um dos pontos centrais de preocupação entre especialistas é a situação dos contratos de concessão da Copasa. A empresa ainda não concluiu a renovação de diversos acordos, o que gera um vácuo de informações sobre a receita futura. A ausência de clareza sobre quais municípios comporão a carteira da companhia após a privatização dificulta a modelagem financeira precisa por parte dos interessados.
O advogado Fernando Vernalha, sócio do escritório Vernalha, ressalta que o ideal seria a consolidação das regionalizações e a atualização definitiva dos contratos antes da venda. A falta de definição sobre a prestação de serviços de esgotamento sanitário em cidades onde a estatal atua apenas no abastecimento de água adiciona uma camada extra de complexidade e risco ao negócio.
Desafios regulatórios e o futuro dos investimentos em saneamento
A legalidade de renovações contratuais recentes, como a de Belo Horizonte, também entra no radar de questionamentos. A prorrogação, que estende a concessão até 2073, é fundamental para a receita da companhia, representando cerca de 30% do faturamento total. Contudo, a forma como essas renovações foram conduzidas, independentemente do processo de desestatização, levanta debates sobre a conformidade com o marco legal do saneamento.
Além disso, a ex-diretora-presidente da ANA, Veronica Sánchez, aponta que o foco do governo mineiro em utilizar os recursos da venda para abater dívidas com a União pode representar uma oportunidade perdida. Para a especialista, o capital deveria ser direcionado para um fundo de retroalimentação, garantindo os vultosos investimentos necessários para a universalização do esgoto, que apresenta um déficit de atendimento superior ao do abastecimento de água.
Cronograma e as próximas etapas da desestatização
O prazo para a apresentação de novas propostas por parte dos interessados em se tornar o acionista de referência foi fixado para o dia 3 de junho. O plano estruturado pelo governo mineiro prevê a alienação de 45% do capital social, com a possibilidade de ajustes conforme o apetite do mercado durante a coleta de intenções de investimento.
A estrutura da oferta permite cenários distintos, incluindo a possibilidade de o governo zerar sua participação caso a demanda supere as expectativas. A manutenção de uma golden share, que confere poder de veto ao estado, permanece como um ponto de atenção para os investidores que analisam a governança da companhia no período pós-privatização.
Fonte: agenciainfra.com