A senadora e ex-ministra Simone Tebet tem redefinido sua trajetória política nos últimos meses, marcando uma transição significativa que a levou do Ministério do Planejamento e Orçamento para uma nova disputa eleitoral em São Paulo. Essa guinada envolveu a mudança de domicílio eleitoral e a troca do MDB, partido de três décadas, pelo PSB, movimentos que, segundo ela, foram previamente acordados para fortalecer uma candidatura ao Senado pela chamada “frente ampla” ou “campo democrático”, conforme detalhado em entrevista à BBC News Brasil.
Apesar de sua carreira ter sido consolidada no Mato Grosso do Sul, onde atuou como deputada estadual, prefeita, vice-governadora e senadora, Tebet agora se aventura em uma nova arena. Sua trajetória ganhou destaque nacional na eleição de 2022, quando, após um terceiro lugar no primeiro turno com uma plataforma de centro-direita, seu apoio a Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno foi crucial para a vitória bastante apertada contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
A Nova Trajetória de Simone Tebet no Cenário Político
A mudança de partido e de estado representa um “cavalo de pau” na vida política de Simone Tebet. Deixando o Ministério do Planejamento e Orçamento, que ocupava desde o início do atual governo, ela se mudou para São Paulo com o objetivo claro de disputar uma vaga no Senado. Essa decisão foi estratégica, visando compor a chapa pela reeleição do presidente Lula e apoiar a candidatura de Fernando Haddad (PT) ao governo paulista, consolidando uma frente ampla que busca fortalecer o campo democrático.
Com um discurso que equilibra moderação, liberalismo econômico e defesa do agronegócio, Tebet se posiciona como uma figura de centro ou centro-direita dentro dessa aliança. Sua pré-candidatura ao Senado em São Paulo já demonstra força, liderando as intenções de voto em cenários testados por levantamentos recentes, o que a deixa tranquila em relação a possíveis concorrentes dentro da própria frente, como Márcio França (PSB) ou Marina Silva (Rede).
Visões para 2026 e a Crítica à Família Bolsonaro
Para a senadora, a eleição de 2026 será decisiva e dependerá, em grande parte, da capacidade do governo de comunicar suas realizações à população. Ela reconhece que, apesar de “ter feito muito”, a comunicação das ações governamentais foi deficiente. Essa percepção molda sua estratégia e a de seus aliados para o próximo pleito, focando em apresentar os resultados da gestão.
Tebet também expressou uma visão contundente sobre a família Bolsonaro, afirmando que a considera uma entidade única, com pensamentos e visões de país alinhados, independentemente de quem seja o candidato. Em uma declaração marcante, ela afirmou: “O Deus deles, ‘Deus, pátria e família’, não é o mesmo Deus nosso. A pátria não é a pátria brasileira, é a pátria estrangeira”, evocando o lema do ex-presidente Jair Bolsonaro e sinalizando uma clara distinção ideológica.
Contexto Internacional e a “Pátria Estrangeira”
A declaração de Simone Tebet sobre a “pátria estrangeira” ganha contornos mais nítidos ao ser contextualizada com eventos recentes envolvendo a família Bolsonaro e o cenário internacional. Poucos dias após a entrevista, o então presidente americano Donald Trump classificou o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas, uma decisão celebrada por Flávio Bolsonaro após uma visita à Casa Branca. Esse episódio gerou debates sobre a influência externa na política brasileira.
Adicionalmente, o governo Trump ameaçou impor tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, alegando práticas comerciais “não razoáveis”. Em meio a essas tensões, Donald Trump publicou fotos com Flávio e Eduardo Bolsonaro no Salão Oval, elogiando Flávio como um “jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!”. Esses acontecimentos reforçam a percepção de Tebet sobre as ligações e prioridades da família Bolsonaro com interesses externos.
Estratégia Eleitoral em São Paulo e a Frente Ampla
A decisão de Simone Tebet de se candidatar ao Senado por São Paulo não foi solitária, mas fruto de um pedido direto do presidente Lula e do vice-presidente Geraldo Alckmin. A justificativa é a importância estratégica de São Paulo para a eleição de 2026 e a necessidade de demonstrar que o governo atual é uma “frente ampla”, com participação de diversos partidos além do PT, como MDB, PSB e PSD.
A senadora enfatiza que não há como recuar dessa posição, dada a radicalidade dos movimentos que fez, incluindo a mudança de domicílio eleitoral e de partido após 30 anos de filiação ao MDB. A estratégia da frente ampla prevê o lançamento de, no máximo, dois candidatos ao Senado na maioria dos estados, visando construir uma maioria no Senado. Essa maioria é vista como crucial para eventuais mudanças constitucionais e para reequilibrar a relação entre os Poderes, especialmente em relação ao Judiciário, que, segundo ela, enfrenta um “desequilíbrio catastrófico para a democracia brasileira”.
Tebet defende sua legitimidade para representar São Paulo, citando laços familiares, residência de mais de uma década no estado e formação acadêmica na capital. Ela diferencia sua situação da de outros políticos que tentaram movimentos semelhantes, como Sérgio Moro, que foi criticado por seu domicílio eleitoral. A senadora confia no “espírito público” de seus potenciais colegas de chapa, como Marina Silva e Márcio França, para a construção dessa frente.
Posicionamento sobre o Poder Judiciário e Impeachment
Abordando a crescente pressão do Senado sobre o Supremo Tribunal Federal (STF), Simone Tebet defende o princípio de que “ninguém está acima da lei”. Ela afirma que, assim como um presidente da República pode ser impichado, um ministro do STF também pode, desde que haja um devido processo legal e ampla defesa. No entanto, ela ressalta que a Constituição não permite questionar decisões judiciais por meras discordâncias ideológicas, criticando a postura da extrema direita que busca a remoção de ministros por não concordar com suas decisões.
A senadora reconhece a existência de “excessos” dentro do Poder Judiciário, inclusive no próprio STF, e menciona denúncias graves de corrupção, venda de sentenças e lobbies ilegítimos em Tribunais de Justiça estaduais. Contudo, por estar afastada do Senado há quatro anos, ela não pode se manifestar sobre a base jurídica dos pedidos de impeachment atualmente em tramitação contra ministros do Supremo, por desconhecer seus teores específicos.
Fonte: blogdomagno.com.br