Em seu primeiro pronunciamento oficial como governador interino do Rio de Janeiro, o desembargador Ricardo Couto dirigiu-se a um grupo de empresários, delineando as prioridades de sua breve gestão. Durante o evento, Couto enfatizou a natureza temporária de seu mandato, negando qualquer pretensão política futura, ao mesmo tempo em que teceu críticas à administração anterior e estabeleceu uma meta ambiciosa de superávit para os cofres estaduais.
Assumindo o cargo por uma conjuntura política inesperada, o magistrado reiterou seu compromisso em atuar como um gestor de transição, focado em restaurar a saúde financeira e a integridade administrativa do estado, antes de passar o bastão ao próximo governante eleito legitimamente.
Transição e a ausência de ambições políticas
O desembargador Ricardo Couto, em seu discurso a empresários, deixou claro que sua ascensão ao poder executivo não visa a qualquer projeto eleitoral ou reeleição. Ele se posicionou como um agente de transição, cuja função primordial é garantir a estabilidade e a governabilidade do estado durante o período interino.
A nomeação de Couto para o governo ocorreu por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), que impediu a assunção do presidente da Assembleia Legislativa. O magistrado ressaltou que a decisão do STF priorizou a segurança institucional, e que seu papel é preparar o terreno para o futuro governo eleito.
Críticas à gestão anterior e o pente-fino administrativo
Sem mencionar diretamente o ex-governador, Ricardo Couto criticou veementemente o que descreveu como a influência excessiva de parlamentares nas secretarias estaduais, com a prática de indicações políticas por cotas. Ele questionou a modalidade de gestão em que deputados reivindicavam secretarias como suas, levantando a questão sobre quem de fato exercia a gestão do executivo.
Em resposta a essa percepção, o governador interino implementou cortes significativos, exonerando mais de três mil servidores comissionados. Além disso, uma auditoria abrangente foi iniciada em todos os contratos públicos, buscando identificar e corrigir possíveis irregularidades. As conclusões desse processo ainda não foram divulgadas.
A meta fiscal ambiciosa e o plano de ajuste
Couto estabeleceu uma meta ousada para sua gestão: entregar os cofres estaduais com um superávit que pode variar de um a cinco bilhões de reais. Este cenário contrasta drasticamente com as projeções anteriores, que indicavam um déficit de dezenove bilhões de reais.
Para alcançar este objetivo, a Secretaria da Fazenda elaborou um plano de ajuste de contas multifacetado. As estratégias incluem a redução de despesas com pessoal, a adesão a programas de reestruturação fiscal, a renegociação da dívida bancária, o combate às barreiras fiscais e aos devedores contumazes, além da simplificação da burocracia para melhorar o ambiente econômico e a renovação de convênios de incentivos fiscais.
Debate sobre financiamento de campanhas e reflexão estadual
Durante seu discurso, o governador interino também abordou o tema do financiamento privado de campanhas eleitorais, extinto em 2015 após decisões do STF em meio a denúncias de corrupção. Couto demonstrou simpatia pela retomada dessa modalidade, desde que sejam implementados critérios rigorosos de transparência.
Ele argumentou que o político profissional pode onerar o poder público e levantou a questão sobre a real natureza do financiamento privado. O desembargador enfatizou que o estado vive um “momento de reflexão”, e sua participação no evento com empresários visava a garantir que os erros do passado não se repitam, promovendo uma análise profunda sobre os acontecimentos recentes.
Fonte: veja.abril.com.br