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Crise migratória em Ceuta: Espanha enfrenta mortes, mobilização militar e atrito diplomático

Crise migratória em Ceuta: Espanha enfrenta mortes, mobilização militar e atrito diplomático
Reprodução Euronews

A cidade autónoma de Ceuta, enclave espanhol no norte de África, registou uma nova e intensa emergência migratória, marcada por uma trágica perda de vidas e uma significativa mobilização de forças de segurança. Milhares de pessoas tentaram a travessia a nado a partir de Marrocos, resultando em dezenas de mortes por afogamento e desencadeando uma resposta militar por parte da Espanha. A situação escalou para uma crise diplomática, envolvendo tensões com a Itália e complexas relações com o país vizinho.

Este cenário de pressão migratória, considerado o mais grave desde 2021, levou o governo espanhol a enviar o Exército para a região e a reforçar as medidas de segurança, enquanto líderes políticos se deslocam ao local para avaliar a situação. A onda de chegadas e os seus desdobramentos colocam em evidência os desafios persistentes na gestão das fronteiras europeias e as intrincadas dinâmicas geopolíticas da região.

A escalada da crise migratória em Ceuta

A recente onda migratória em Ceuta resultou na morte de pelo menos 16 pessoas por afogamento em apenas 24 horas, elevando o número total de migrantes mortos nas águas do enclave para mais de 40 desde o início de 2026. Este valor representa o mais alto registado desde a tragédia do Tarajal em 2014, sublinhando a gravidade da situação.

Milhares de migrantes, com estimativas variando entre 1.500 e 2.000 segundo o Ministério do Interior espanhol, e até 20.000 movimentos nas últimas horas de acordo com o presidente da cidade autónoma, Juan Jesús Vivas, contornaram o esporão do Tarajal e lançaram-se ao mar. A maioria era jovem, mas também foram registadas tentativas de travessia por famílias com bebés, idosos e pessoas com mobilidade reduzida.

Do lado marroquino, a cidade de Fnideq (Castillejos) foi paralisada pela corrida massiva em direção à costa. Muitos migrantes foram vistos a comprar bóias na medina antes de se atirarem à água, aproveitando o calor e um nevoeiro cerrado. As lojas encerraram mais cedo devido ao receio de distúrbios, e o trânsito ficou bloqueado por horas, com a polícia marroquina a demonstrar dificuldades em conter o fluxo.

Resposta de Madri: mobilização militar e reforço de segurança

Diante da dimensão da crise, o Governo de Espanha ordenou o envio do Exército para Ceuta para apoiar a Guarda Civil. Esta medida foi complementada com o reforço da Agrupación de Reserva y Seguridad, que recebeu 60 elementos adicionais, e a incorporação de 30 guardas civis da Andaluzia à Unidade de Segurança Cidadã. Além disso, oito mergulhadores do GEAS foram enviados para a região.

O navio Duque de Ahumada chegou à cidade para reforçar o Serviço Marítimo, que também passou a contar com um helicóptero e vários pilotos de drones. Em Melilla, outro enclave espanhol, a passagem de Beni Enzar permaneceu encerrada devido a tentativas semelhantes de entrada irregular, evidenciando a abrangência da pressão migratória.

O presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, deslocou-se a Ceuta, acompanhado pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska. A agenda incluiu uma visita ao Tarajal e uma reunião de coordenação com autoridades locais e comandos policiais. Paralelamente, o partido Vox solicitou esclarecimentos no Congresso por parte de Marlaska, da ministra da Defesa e da diretora de Segurança Nacional.

Tensão diplomática: atrito com a Itália e o pano de fundo marroquino

A crise migratória em Ceuta abriu uma frente diplomática inesperada com a Itália. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, considerou a suspensão da livre circulação com Espanha, ligando a vaga migratória à regularização de 500 mil pessoas aprovada pelo governo espanhol. O ministro dos Negócios Estrangeiros italiano, Antonio Tajani, foi além, pedindo diretamente o encerramento do espaço Schengen.

Em resposta, o ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, José Manuel Albares, convocou o embaixador italiano, mas não o marroquino, e classificou a mensagem de Roma como “imprópria de um país parceiro e amigo”, acusando o Executivo de Meloni de “demagogia partidária”. Madri insiste que a crise está ligada a uma decisão do Tribunal Supremo e não tem relação com a regularização de migrantes.

A crise eclodiu poucos dias após a Espanha ter avançado no reconhecimento da nacionalidade para os saharauis nascidos durante a administração espanhola. Coincidiu também com a visita do presidente do Governo à Argélia, país com o qual Marrocos rompeu relações diplomáticas em 2021 devido a profundas divergências sobre o Saara Ocidental, adicionando camadas de complexidade ao cenário regional. Para mais informações sobre a crise migratória na Europa, consulte fontes confiáveis.

As causas apontadas para a onda de chegadas

O governo espanhol atribui o efeito de atração desta recente vaga migratória a uma decisão do Tribunal Supremo, proferida no início de julho, que impede as devoluções imediatas de migrantes intercetados no mar. Fontes do Ministério do Interior espanhol asseguram que redes de tráfico de pessoas estão a “instrumentalizar” esse acórdão para encorajar as travessias.

Por outro lado, Marrocos responsabiliza “organizações criminosas” pela organização da vaga de migrantes. Esta divergência nas explicações sublinha a complexidade da situação e a dificuldade em atribuir uma causa única para o fenómeno, que envolve fatores sociais, económicos e políticos em ambos os lados da fronteira.

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