O setor de transporte marítimo e a indústria de biocombustíveis no Brasil estão ativamente buscando um alinhamento estratégico para posicionar o etanol como um combustível fundamental na transição energética da navegação global. Esta iniciativa é vital para o país, um dos líderes mundiais na produção de etanol, visando sua classificação como uma alternativa menos poluente, em consonância com as metas de descarbonização do setor marítimo, que almeja zero emissões até 2050.
Uma reunião crucial da IMO (Organização Marítima Internacional), agendada para novembro, pode determinar a aceitação do etanol como combustível de transição. A aprovação abriria um mercado global estimado entre R$ 75 bilhões e R$ 150 bilhões anualmente, conforme as condições de sua implementação. Representantes de empresas e órgãos governamentais brasileiros têm avaliado os pontos prioritários para a regulamentação desse organismo internacional ligado à ONU.
Etanol na navegação: a busca por reconhecimento e um mercado bilionário
A potencial consolidação do ambiente regulatório para o uso do etanol na navegação representa uma oportunidade econômica sem precedentes. Executivos do setor estimam que um mercado global de 250 bilhões a 300 bilhões de litros por ano poderia ser criado. No Brasil, essa oportunidade é traduzida em uma receita anual de R$ 75 bilhões a R$ 150 bilhões nos próximos anos, destacando a urgência das negociações que culminarão em novembro.
O transporte marítimo contribui com até 3% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. Enquanto as alternativas de segunda geração, com emissões próximas de zero, enfrentam dificuldades de escala, o etanol de primeira geração oferece uma redução de 60% a 90% nas emissões em comparação com o bunker tradicional. Além disso, o Brasil, segundo maior produtor mundial, já possui uma cadeia produtiva de biocombustível consolidada.
Articulações diplomáticas e a resistência internacional ao biocombustível
O caminho para o reconhecimento do etanol como combustível de transição não é isento de obstáculos. A principal resistência tem vindo dos Estados Unidos, que, desde uma gestão anterior, defende a manutenção das regras atuais para o transporte marítimo, resultando no adiamento de novas diretrizes da IMO. Essa postura americana é percebida como mais ideológica, contrastando com um alinhamento anterior com o Brasil.
Empresários brasileiros têm se empenhado em convencer o governo dos EUA, por meio de empresas do setor, de que a incorporação do etanol na navegação beneficiaria a economia norte-americana, já que ambos os países lideram a produção mundial. As articulações diplomáticas brasileiras também conseguiram mitigar parte da resistência europeia, que inicialmente priorizava apenas combustíveis totalmente sem emissões, permitindo focar os esforços nas negociações com os Estados Unidos. A Marinha do Brasil, com apoio do Ministério de Relações Exteriores, está à frente dessas discussões na IMO.
Testes bem-sucedidos e a viabilidade econômica do etanol marítimo
A utilização do etanol na navegação já transcendeu a fase hipotética, tornando-se uma realidade prática. Empresas como a Wärtsilä, líder em motores navais, iniciaram trabalhos em 2021 para viabilizar o uso do etanol como combustível marítimo. Desde 2023, diversos operadores, incluindo a Copersucar em operações comerciais com navios da CMA CGM, além de Vale e Maersk, realizaram testes bem-sucedidos. Atualmente, estima-se que cerca de 440 navios já possuem capacidade técnica imediata para utilizar o biocombustível.
Embora o etanol ainda apresente um custo superior aos combustíveis fósseis, sua competitividade se equipara quando se considera a captação de créditos de carbono pelas reduções de emissões. A incorporação do valor do crédito de carbono, decorrente de uma redução de aproximadamente 75% das emissões, torna a conta equivalente no mercado voluntário. No entanto, é fundamental que a IMO estabeleça mecanismos de precificação do carbono para garantir a competitividade do etanol, que possui menor poder calorífico e, portanto, exige maior volume para a mesma energia.
A infraestrutura também apresenta desafios, envolvendo tanto a oferta de etanol quanto o desenvolvimento necessário para o abastecimento internacional no Brasil. A consolidação do mercado também depende da regulamentação do FuelEU Maritime, um programa europeu focado na descarbonização da navegação. Para mais informações sobre as diretrizes da Organização Marítima Internacional, visite a IMO.
Regulamentação do carbono e a competitividade do etanol brasileiro
Outra pauta relevante nas discussões da IMO é a criação de penalidades para o uso de combustíveis fósseis, uma medida que as empresas brasileiras buscam combater. A preocupação reside no fato de que um modelo regulatório focado apenas no volume de emissões pode comprometer a competitividade de produtos de baixo valor agregado que demandam longas distâncias de transporte, como as commodities exportadas pelo Brasil para mercados distantes como a China.
Executivos do setor enfatizam a necessidade de um modelo regulatório que considere a intensidade das emissões, em vez de metas universais que podem penalizar exportadores de longa distância. Penalidades consideradas “draconianas” são vistas como inapropriadas em um cenário onde navios e combustíveis sustentáveis ainda não estão amplamente disponíveis. A diversificação de fontes energéticas, como o etanol, é vista como uma vantagem estratégica para o Brasil em um contexto de volatilidade dos combustíveis fósseis e busca por segurança energética.
Fonte: agenciainfra.com