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França aprova lei da eutanásia e estabelece direito à ajuda a morrer

AP Photo/Michel Euler
AP Photo/Michel Euler

A Assembleia Nacional francesa aprovou, após meses de intensos debates, a proposta de lei que institui o “direito à ajuda a morrer”. O texto, uma das promessas emblemáticas do segundo mandato do presidente Emmanuel Macron, foi aprovado com 291 votos a favor e 241 contra, em uma votação que revelou profundas divisões no cenário político do país.

A aprovação marca um momento significativo na legislação francesa sobre o fim da vida, com o presidente Macron descrevendo-a como o “modelo francês de fim de vida”. A medida visa oferecer uma opção para indivíduos que enfrentam doenças graves e incuráveis, em um contexto de sofrimento insuportável.

O debate sobre a eutanásia e as divisões políticas

O percurso parlamentar da proposta foi longo e controverso, caracterizado por meses de discussões e idas e vindas entre as casas legislativas. Esta foi a quarta e última votação na Assembleia Nacional, onde o texto obteve sua maioria mais estreita, comparada às aprovações anteriores com 305, 299 e 295 votos favoráveis, respectivamente.

As divisões políticas foram evidentes durante todo o processo. Enquanto grupos de extrema-direita, como o Rassemblement National (RN) e a Union des Droits pour La République (UDR), e o partido Les Républicains (LR) votaram contra, os parlamentares de esquerda, especialmente os socialistas, e os apoiadores de Emmanuel Macron, apoiaram amplamente o projeto de lei. Grupos centristas, por sua vez, optaram por não emitir instruções de voto aos seus membros.

Condições rigorosas para o acesso à ajuda a morrer

A nova legislação estabelece critérios estritos para o acesso ao mecanismo de ajuda a morrer. Somente pessoas maiores de idade, de nacionalidade francesa, podem recorrer a ele. É necessário que o indivíduo seja afetado por uma “doença grave e incurável” que comprometa seu prognóstico vital em “fase avançada ou terminal”.

Adicionalmente, o paciente deve sofrer de uma “dor física ou psicológica constante ligada a essa doença”, que seja “resistente aos tratamentos ou considerada insuportável”. Um ponto notável é o abandono do critério de esperança de vida do doente, inicialmente previsto, devido à dificuldade prática de avaliar com precisão o tempo de vida restante.

O processo de decisão e a administração da substância

A análise dos pedidos de ajuda a morrer envolve um processo rigoroso. O médico responsável pela avaliação deve coletar o parecer consultivo de um segundo médico especialista na patologia em questão e de um auxiliar de saúde que conheça o paciente. Outros profissionais, como psicólogos ou cuidadores próximos, também podem ser consultados.

O médico tem um prazo máximo de quinze dias para tomar uma decisão. Se o pedido for favorável, o paciente deve cumprir um período de reflexão de dois dias antes de confirmar sua vontade. A administração da substância letal prioriza a autoadministração pelo próprio doente, mas prevê uma exceção: se o paciente não estiver fisicamente apto, um médico ou enfermeiro poderá realizar o procedimento.

Repercussões e o futuro da legislação

Após a votação, diversas personalidades políticas se manifestaram. Emmanuel Macron agradeceu aos parlamentares pelo debate “construtivo e respeitoso”, reafirmando seu compromisso de 2022 e mencionando que o Conselho Constitucional ainda se pronunciará sobre algumas disposições do projeto. Ele destacou a importância dos testemunhos pessoais que “nutriram profundamente este texto”.

Os parlamentares do partido La France Insoumise celebraram a votação como “histórica”, reconhecendo o “direito de escolher o próprio fim de vida numa situação de grande sofrimento”. Por outro lado, Bruno Retailleau, presidente dos Republicains, criticou a proposta, classificando-a como uma “lei do abandono” e defendendo que “uma grande nação não responde ao sofrimento com a morte, mas com cuidado e apoio”. O ex-primeiro-ministro Gabriel Attal, líder dos deputados do Ensemble pour la République (EPR), enfatizou que a liberdade de escolha deve ser acompanhada por um investimento maciço em cuidados paliativos, um ponto que, segundo ele, o texto também aborda. Para mais informações sobre o processo legislativo na França, consulte a Assembleia Nacional.

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