A comissão especial da Câmara dos Deputados concluiu, nesta quarta-feira, a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que visa extinguir a escala 6×1 no Brasil. O avanço do texto ocorreu após o colegiado rejeitar um destaque apresentado pelo Partido Liberal (PL), que pretendia alterar o cronograma de implementação das novas regras trabalhistas. Com a decisão, a matéria segue para análise imediata no plenário da Casa.
A votação foi marcada por intensos debates entre parlamentares da base governista e da oposição. Apesar das divergências ideológicas, uma parcela significativa de deputados oposicionistas acompanhou o parecer favorável do relator, deputado Leo Prates. O texto-base recebeu 34 votos favoráveis, consolidando um apoio expressivo dentro do colegiado antes de enfrentar o crivo de todos os deputados federais.
Redução da jornada e transição gradual de 14 meses
O cerne da proposta aprovada estabelece a redução da jornada de trabalho semanal de 44 para 40 horas, sem que haja qualquer redução nos salários dos trabalhadores. Para mitigar impactos econômicos imediatos, o relatório de Leo Prates prevê um período de transição total de 14 meses. Esse escalonamento foi um dos pontos de maior discussão durante as sessões da comissão especial.
A implementação ocorrerá em duas etapas principais. A primeira redução, de duas horas na jornada semanal, deve acontecer 60 dias após a promulgação da PEC. A segunda etapa, que retira as duas horas restantes para atingir o limite de 40 horas, será aplicada após o encerramento de um ciclo de 12 meses. Esse modelo busca oferecer previsibilidade ao mercado de trabalho e às empresas.
Rejeição de destaque do PL e embates políticos
Durante a fase de votação dos destaques, o PL tentou aprovar uma modificação que previa a implementação imediata das mudanças logo após a promulgação da proposta. No entanto, os membros do colegiado rejeitaram a sugestão em votação simbólica. A manutenção do texto original do relator foi vista como uma vitória estratégica para garantir a viabilidade técnica da transição laboral.
Apenas quatro deputados votaram contra o texto-base na comissão: Mauricio Marcon, Osmar Terra, Gilson Marques e Julia Zanatta. A oposição, em sua maioria, criticou a celeridade da tramitação, classificando a iniciativa como uma medida com contornos eleitorais. Por outro lado, defensores da PEC argumentam que a mudança é uma demanda histórica para melhorar a qualidade de vida do trabalhador brasileiro.
Presença ministerial e prioridade do governo federal
A relevância do tema para o Palácio do Planalto foi evidenciada pela presença física de ministros de Estado durante a sessão. Acompanharam os trabalhos José Guimarães, ministro da Secretaria de Relações Institucionais, e Luiz Marinho, ministro do Trabalho e Emprego. A articulação política do governo foi fundamental para garantir que a proposta avançasse conforme o planejado pelo Ministério do Trabalho.
A proposta é tratada como uma das prioridades legislativas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo informações da Câmara dos Deputados, o governo busca consolidar uma agenda positiva voltada aos direitos trabalhistas. A expectativa agora recai sobre a mobilização das bancadas no plenário, onde o quórum para aprovação de uma PEC exige o apoio de pelo menos 308 deputados em dois turnos de votação.
Impactos econômicos e críticas do setor produtivo
Apesar do avanço legislativo, o setor produtivo mantém um posicionamento crítico em relação ao fim da escala 6×1. Entidades representativas da indústria e do comércio alertam para o possível aumento nos custos operacionais, o que poderia comprometer a competitividade das empresas brasileiras no cenário internacional. Há também preocupações sobre a capacidade de micro e pequenas empresas absorverem a nova carga horária sem reduzir o quadro de funcionários.
Os críticos argumentam que a mudança pode gerar um efeito cascata nos preços de produtos e serviços, além de desestimular a abertura de novas vagas formais. O debate econômico deve ganhar ainda mais força durante a tramitação no plenário e, posteriormente, no Senado Federal, onde as implicações financeiras da medida serão detalhadamente escrutinadas pelas comissões temáticas.
Fonte: veja.abril.com.br