O Ministério Público Federal (MPF) realizou uma visita técnica estratégica à Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), marcando um passo significativo na concretização de um memorial dedicado a Gabriel Sales Pimenta. A diligência, ocorrida na última terça-feira (21), teve como objetivo primordial avaliar as condições e o potencial do local para abrigar uma homenagem duradoura ao advogado, que foi um incansável defensor dos trabalhadores rurais e cujo assassinato em 1982 permanece como um símbolo da luta por justiça no campo.
A iniciativa reflete um compromisso com a memória e a reparação histórica, buscando transformar um espaço físico em um ponto de reflexão e engajamento. A presença de representantes do MPF, incluindo a procuradora da República Gabriela Puggi Aguiar e o procurador regional dos Direitos do Cidadão no Pará, Sadi Flores Machado, sublinha a relevância institucional do projeto. A comitiva contou ainda com a participação de diversas entidades, como a Procuradoria Municipal de Marabá, a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Sindicato dos Trabalhadores Rurais em Marabá, o Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp) e a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), evidenciando o caráter coletivo e representativo da ação.
Condenação do Brasil e a busca por reparação simbólica
A necessidade de um memorial para Gabriel Pimenta surge de um contexto de grave violação de direitos humanos e impunidade. Em 2022, o Brasil foi formalmente condenado pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (Corte IDH) devido à inação e à lentidão da Justiça brasileira no caso do assassinato do advogado e ativista. A sentença da Corte destacou a negligência estatal que culminou na prescrição do crime, impedindo a responsabilização dos culpados e perpetuando a dor dos familiares e da sociedade.
Entre as obrigações impostas pela Corte à União, estava a nomeação de uma praça pública em Marabá com o nome de Gabriel Pimenta. Contudo, após uma análise que revelou a localização de possíveis praças em áreas afastadas e com pouca circulação, a Unifesspa e a CPT apresentaram uma proposta alternativa ao MPF. A ideia de construir o memorial dentro da universidade surgiu como uma solução mais eficaz para valorizar, proteger e resguardar o legado de ativismo do defensor de direitos humanos, garantindo que sua história seja acessível e inspiradora para as futuras gerações.
Unifesspa como epicentro de uma memória ativa
A escolha da Unifesspa como local para o memorial não é aleatória, mas estratégica. Familiares do advogado já haviam manifestado sua concordância com a proposta, reconhecendo o valor de uma homenagem situada em um ambiente acadêmico, frequentado por estudantes e pesquisadores. Este cenário oferece uma oportunidade única para que a história de Gabriel Pimenta seja estudada, debatida e perpetuada, integrando-se ao currículo e à vida universitária.
Adicionalmente, o campus Cidade Jardim, onde o memorial será erguido, sedia semanalmente uma feira de produtos de pequenos agricultores familiares. Este detalhe é de suma importância, pois conecta diretamente o espaço do memorial com um dos principais grupos sociais pelos quais Gabriel Pimenta dedicou sua vida e atuação. A presença constante desses trabalhadores reforça o propósito do memorial como um elo vivo com as causas que ele defendia.
Orientações do MPF para um projeto participativo
Durante a visita, o MPF enfatizou a visão de que o memorial deve transcender a função de um mero “museu parado”. A procuradoria defende que o espaço funcione como uma “memória ativa” de Gabriel Pimenta, servindo como um catalisador para fortalecer a luta camponesa contemporânea e como um centro de fomento e disseminação das conquistas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Essa abordagem visa garantir que o memorial cumpra seu papel como uma medida de não repetição de violações de direitos humanos e de reparação simbólica.
Para assegurar a autenticidade e a representatividade democrática do projeto, o MPF destacou a necessidade fundamental de que a equipe de engenharia da Unifesspa desenvolva o projeto do memorial em diálogo direto e contínuo com os movimentos sociais. Essa colaboração é vista como essencial para que o espaço reflita verdadeiramente os ideais e a luta de Gabriel Pimenta, sendo construído com a participação daqueles que mais se identificam com seu legado.
O legado de Gabriel Sales Pimenta
Gabriel Sales Pimenta foi um jovem advogado de 27 anos que dedicou sua vida à defesa dos direitos humanos e dos trabalhadores rurais. Sua atuação como representante do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Marabá o colocou na linha de frente dos conflitos agrários da região. Em 18 de julho de 1982, sua vida foi tragicamente interrompida por tiros, um crime diretamente relacionado à sua corajosa defesa dos posseiros e à sua luta por justiça social. Seu sacrifício se tornou um marco na história da defesa dos direitos humanos no Brasil, e o futuro memorial na Unifesspa busca assegurar que sua memória continue a inspirar e a mobilizar a sociedade. Fonte: Correio de Carajás
Fonte: correiodecarajas.com.br