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Reino Unido reavalia acordo sobre Ilhas Chagos após forte crítica de Donald Trump

Reino Unido reavalia acordo sobre Ilhas Chagos após forte crítica de Donald Trump

O Reino Unido anunciou a revisão de um acordo crucial sobre o futuro das Ilhas Chagos, uma decisão que surge após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter classificado o pacto como “terrível”. O anúncio foi feito pelo ministro da Defesa britânico, Wes Streeting, um dia depois de Trump expressar suas objeções diretamente ao primeiro-ministro Andy Burnham, à margem da Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova Iorque.

A reavaliação do acordo, que previa a devolução do arquipélago às Maurícias e o subsequente arrendamento da estratégica base militar de Diego Garcia, marca um novo capítulo na prolongada disputa territorial. A suspensão dos pagamentos anuais de 139 milhões de euros, anteriormente acordados com as Maurícias, sublinha a seriedade do impasse diplomático.

Impasse diplomático sobre o futuro de Chagos

Durante o encontro com o primeiro-ministro britânico Andy Burnham, o presidente Donald Trump não poupou críticas ao acordo sobre as Ilhas Chagos. Sentado ao lado de Burnham, Trump expressou a esperança de que o líder britânico reconsiderasse o que ele chamou de “acordo terrível”. Burnham, que assumiu o cargo em julho, acenou em concordância e afirmou que o Reino Unido “trabalharia arduamente” para resolver a questão, confiante em uma solução conjunta com os parceiros norte-americanos.

O ministro da Defesa, Wes Streeting, confirmou que as objeções de Trump não são novidade, mas as recentes declarações deixam “absolutamente claro” que a posição do presidente sobre o acordo “não mudou”. Streeting enfatizou a necessidade de uma colaboração mais intensa com a administração Trump para que o acordo possa ser apoiado. Ele também confirmou que o Reino Unido não efetuará, “nesta fase”, os pagamentos anuais de pelo menos 120 milhões de libras (139 milhões de euros) que haviam sido acordados com as Maurícias para o arrendamento da base militar em Diego Garcia.

O acordo original e a estratégica base de Diego Garcia

O acordo em questão foi alcançado no ano passado entre o então primeiro-ministro Keir Starmer e o governo das Maurícias. Ele estipulava a devolução do arquipélago do Oceano Índico ao antigo território colonial britânico, seguido de um arrendamento de 99 anos, com opção de prolongamento, da estratégica base conjunta Estados Unidos–Reino Unido em Diego Garcia. No entanto, em abril, Londres já havia anunciado a suspensão desses planos.

Inicialmente, Donald Trump havia apoiado o pacto, mas posteriormente mudou de posição, classificando-o como “um ato de grande estupidez”. A questão tem sido fonte de atrito com a sua administração por vários meses. Starmer defendeu o acordo, argumentando que decisões de instâncias jurídicas internacionais haviam posto em causa a reivindicação britânica sobre as ilhas, e que apenas um entendimento com as Maurícias poderia garantir a continuidade do uso da base pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido.

Raízes históricas da disputa pelas Ilhas Chagos

A controvérsia em torno das Ilhas Chagos tem profundas raízes históricas. O Reino Unido manteve o controlo do arquipélago quando as Maurícias conquistaram a independência na década de 1960. Durante esse período, milhares de habitantes foram expulsos de suas casas, e desde então têm movido várias ações de indemnização nos tribunais britânicos. Este histórico de deslocamento forçado adiciona uma camada complexa à disputa territorial.

Em 2019, o Tribunal Internacional de Justiça (TIJ) emitiu um parecer consultivo que concluiu que o Reino Unido separou ilegalmente Chagos das Maurícias ao pôr fim ao domínio colonial. Esta decisão do TIJ reforçou a posição das Maurícias e aumentou a pressão internacional sobre o Reino Unido para resolver a questão da soberania do arquipélago. A base de Diego Garcia, vital para operações militares dos EUA e do Reino Unido, é um ponto central nessa complexa negociação.

Reações políticas e os desafios para o governo britânico

A decisão de rever o acordo gerou diferentes reações no cenário político britânico. James Cartlidge, porta-voz da Defesa dos conservadores na oposição, afirmou que o acordo “devia ser pura e simplesmente rasgado”, defendendo uma postura mais rígida. Contudo, Wes Streeting rejeitou essa abordagem, alertando contra uma “estratégia da avestruz” que ignora a importância de um dos ativos de segurança nacional mais sensíveis do Reino Unido.

Jack Pannell, investigador sénior do grupo de reflexão British Foreign Policy Group, comentou que a prioridade do primeiro-ministro Burnham nas conversas com Trump seriam “as grandes questões internacionais”, como a regulação da inteligência artificial, a Ucrânia e o Médio Oriente. Para Pannell, o sucesso de Burnham residiria em evitar que o dossier de Chagos se tornasse um obstáculo enquanto ele persegue outras prioridades de política externa e se concentra na agenda interna. As chances de um avanço rápido neste tema são consideradas reduzidas, o que, paradoxalmente, poderia até convir ao primeiro-ministro no curto prazo.

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